Dê tempo ao tempo

Da relação entre tempo e trabalho.

Torre do Old City Hall de Toronto. Foto: Kosta.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Toda oferta de emprego hoje em dia invariavelmente vem acompanhada da advertência de que é um escritório muito ocupado e que é preciso fazer várias coisas ao mesmo tempo (multitasking). Ou seja, já vem o recado de que o contratado, na verdade, fará o serviço que deveria ser distribuído entre duas ou três pessoas e que, portanto, viverá estressado pelo excesso de trabalho. Também nas entrelinhas está o lamento do patrão por ainda não haver um robô que faça o serviço, só contratando um humano por falta de alternativa.

Do outro lado do balcão, a coisa não é muito melhor: clientes frequentemente chegam pedindo serviços “para ontem”, não se dando conta de que é necessário tempo para ser executado – e mais, há uma fila com muita gente que fez o pedido antes de você. Há quem chegue no restaurante e queira que a comida que você ainda nem pediu já esteja servida na mesa. Perdemos o senso? Vá fazer você, então, o serviço, para ver as dificuldades que ele inclui e o tempo de que necessita!

E se falamos em tempo, há que lembrar-se sempre em margem de tempo, aquele tempo extra para incluir os imprevistos. Voltando ao caso da empresa, por exemplo, o patrão que exige um trabalhador robotizado esquece de que a copiadora pode trancar com papel dentro, exigindo alguns minutos do funcionário para desobstruí-la, a internet pode estar lenta ou um cliente pode ligar reclamando que seu pedido não chegou e será necessário localizar o entregador para saber o que aconteceu. Imprevistos são recorrentes e têm que estar incluídos no planejamento.

Há uma tendência, ainda, de tentarmos reduzir ao máximo o tempo para as atividades-meio, como se igualmente elas não o exigissem. O patrão calcula que o motorista pode levá-lo em 20 minutos ao aeroporto, sendo que mesmo ruas desertas exigiriam 30 minutos. Os semáforos funcionam 24 horas, não esqueça, e é preciso parar neles, sim ou sim. E a probabilidade é haver um engarrafamento, ou seja, o trajeto pode demorar 45 minutos. Não adianta gritar ou bater a cabeça, o carro não pode pular sobre os outros. Não se estresse à toa, dê margem de tempo.

Outras atividades-meio que tentamos cortar do período que demandam são as necessidades básicas do ser humano, como tempo para se alimentar. Umas poucas lojas de minha Pelotas (RS) ainda resistem, fechando ao meio-dia para reabrir às duas da tarde. Duas horas de almoço, permitindo até fazer a refeição em casa, junto à família. Os intervalos de almoço, contudo, na maioria dos casos são cada vez menores e muitos já comem na própria mesa de trabalho, e sem sequer parar de trabalhar. Má digestão na certa. Cortamos ainda o tempo de dormir: calculamos que dormindo às duas da madrugada e despertando às seis será o suficiente. Pobre corpo, que não tem o merecido descanso. Ainda cortamos as férias, cada vez mais reduzidas, em outra exigência de que o corpo se comporte como máquina e privando-nos do convívio com a família.

Portanto, dê tempo ao tempo. Encomende um quadro a um artista. Se você o der um prazo de 24 horas terá um trabalho completamente diferente do que se você o der um mês. Aprendamos com a natureza, onde uma colheita antes do tempo certamente não será boa, e com as mães, que rezam para que seus bebês não sejam prematuros. Em tempos de pandemia, não tenhamos pressa de reabrir, como alguns governos, para não corrermos riscos desnecessários.

Resumindo, em coluna anterior (“Lar, nem sempre doce lar”) mencionei a necessidade de termos cuidado com a dimensão espaço, cada vez menor. Desta vez, lembro que também a dimensão tempo não pode ser cortada inescrupulosamente. Enfim, obrigado a você, que gastou três minutos de seu tempo para ler este texto, já rotulado de textão pelos moldes atuais. E se você gastar um minuto a mais para pensar um pouco sobre o que leu, é sinal de que entendeu a mensagem: tudo tem seu tempo e é preciso dar tempo ao tempo.

Sobre José Francisco Schuster (40 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

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