O que a África me ensinou
Gabriel Melo Viana é colunista do Jornal de Toronto
Tive a oportunidade de visitar, no último mês de março, alguns países da África Ocidental. Comecei pela Serra Leoa, passei pelo Gâmbia, Senegal e Guiné-Bissau. Foi uma viagem incrível.
Eu sempre gostei de fugir do óbvio. Nunca fui fã de Orlando – e nunca fui à Disney, mesmo tendo ido a Orlando algumas vezes. Apesar de já ter ido a mais de 60 países, não conheço muito da Europa. Não tenho nada contra o óbvio, mas o óbvio me deixa entediado. Mas sabe o que mais me deixa entediado? Ignorância.
A África, como bom baiano, eu já sabia que é uma fonte riquíssima de cultura, um continente que respira cultura. De um lado, fiquei muito entusiasmado em respirar essa cultura. Tive a oportunidade de visitar um ritual da Vaca Bruta numa tribo das Ilhas Bijagós, na Guiné-Bissau, um ritual de transição de jovens para homens, após a aprovação dos anciões da tribo. Ver aqueles jovens dançando, a música, os tambores, os sons, a riqueza ancestral que passou por múltiplas gerações e ainda sobrevive… Me senti em êxtase ouvindo aqueles sons, vi uma cultura e uma identidade que atravessou um oceano e que sobrevive. Em pouco mais de uma hora de ritual, senti séculos de história. Senti a energia pulsante que se sente em Salvador, uma energia que só sentindo para poder entender.
Nas Ilhas Bijagós, um centro fortíssimo de religião animista, provei vinho de palma fermentado pela própria tribo e circulei por praias isoladas. Vi uma África linda, rica, gentil, inexplorada e talvez, por isso, ainda original. Por outro lado, me senti mal com o apagamento cultural que boa parte da África, lamentavelmente, passou. Ao contrário das Bijagós, em alguns lugares sinto que o tradicional ainda respira, mas respira sob aparelhos. Tudo culpa do colonialismo, que deixou feridas profundas na África e no mundo.
Alguns povos infelizmente sofreram, e sofrem, lavagem cerebral. Conversando com vários locais, vi claramente que a imposição de religiões de outras partes do mundo, e a imposição da ideia de que suas culturas tradicionais e suas religiões animistas têm algo errado, é repugnante. Isso lamentavelmente vemos em nosso próprio país, Brasil, onde conceitos impostos vendem a ideia de que o que é tradicional, o que é brasileiro de verdade, é ruim.
Me deixa triste ver que a brasilidade é tratada como algo inferior por muitos brasileiros, principalmente alguns que se autodenominam, erroneamente, patriotas.
Me apaixonei pela África Ocidental, mas pela África real, que ainda resiste. Me apaixonei da mesma forma que sou apaixonado pelo Brasil real, o Brasil que é orgulhosamente mestiço, o Brasil que abraça sua herança indígena e africana, o Brasil que respeita a diversidade religiosa, o Brasil que não quer fingir que é estrangeiro. Fui à África, mas me conectei ainda mais com o Brasil.

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