Luto à distância

Não há nada mais importante do que as pessoas e a memória que temos delas

Foto: Heung Soon.

Rogério Duarte é escritor e editor

Nos últimos meses, perdi duas pessoas queridas: uma amiga e um amigo que moravam no Brasil. Confesso que não estava preparado para viver o luto à distância. A impossibilidade de me despedir foi dolorosa, mas voltou a me ensinar o que aprendi ainda garoto.

A morte sempre me rondou. Perdi gente muito próxima mais cedo do que a maioria das pessoas. Depois perdi bons amigos na juventude – teve de tudo, de terríveis acidentes de carro até um colega que simplesmente desapareceu depois de uma festa. Então os anos foram passando e cada vez mais gente partiu. Cada um tem sua própria história com a morte, essa é a minha. Lidar com o perecimento humano é inevitável.

Essa constatação, por mais desconfortável que pareça, pode calibrar a vida num sentido construtivo. Foi o que aprendi quando encontrei cedo essa indesejada das gentes. Meu pai fez questão de me ensinar como é que se morre no Brasil: reconhecer o corpo, lidar com ele, vesti-lo, registrar a certidão de óbito, negociar caixão, marcar horário de velório e enterro, tudo isso fiz ainda na pré-adolescência, depois pus em prática mais de uma vez.

Mas meu pai jamais me ensinou como perder amigos morando a mais de oito mil quilômetros de distância deles. O luto é uma experiência dura, mas faz falta. Primeira lição importante da morte, essa professora amarga: por pior que seja, sempre é melhor estar lá, perto dos falecidos e de quem chora por eles. O mundo em que vivemos quer esconder a morte e vender ilusões de juventude, mas aprendi que a mais saudável das práticas é sentir a dor da perda, não evitá-la.

Vivendo aqui no Canadá, tive de correr atrás de gente que também gostava dos que se foram para fazer uma oração à minha maneira: celebrando-lhes a presença, ainda que estejam ausentes, em conversas longas com quem teve paciência de me atender. Segunda lição da rigorosa tutora de todos nós: não há nada mais importante do que as pessoas e a memória que temos delas. Estendi o quanto pude o papo nessas ligações e fiz questão de dizer coisas importantes e interditas. Neste nosso mundo canalha, quase nunca dizemos aos amigos remotos que aqueles tempos foram bons, que as circunstâncias nos afastaram, mas que ainda nos lembramos uns dos outros. Felizmente os mortos fazem perceber o vazio da vida em que estamos metidos, porque nos dão a chance de reavaliar escolhas. Que importância tem o trabalho, ou o compromisso mesquinho do cotidiano, frente ao que sentimos pela pessoa querida?

Para mim, quase nenhuma. Por isso é que fui religiosamente a incontáveis funerais nesta vida – para me lembrar de que a importância que atribuímos ao que é material é ínfima quando comparada ao valor das pessoas. A morte dá a todos a chance de humanização – exatamente o que nos rouba a sociedade em que vivemos. Para os empregadores, o mundo corporativo, as redes sociais, somos mercadoria comprável, vendável e dispensável – mas não para as pessoas que amamos e que nos amam.

Passei a vida toda aprendendo a não fugir da morte, e agora ela surpreende de novo, me obrigado a renovar as formas de viver o luto. É de vida que se trata, afinal. Já que ainda estou vivo, que eu possa aprender, com quem parte, a escolher sempre as pessoas antes das coisas, e os afetos antes da propriedade.

Leia também o texto “A morte do outro lado do mundo”, de Sonia Cintra.

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