O apanhador, o cacundeiro e a alegria
Carlos Rogério Duarte é escritor e editor
Da série “Crônica da Copa”
Um amigo querido, da época da sala de aula, faz questão de me dizer que Cabo Verde, mesmo perdendo, restaurou-lhe a fé na poesia do futebol. Concordei. O time foi valente contra os argentinos até o último minuto e deixou o campo com uma dignidade rara. Assisti ao jogo com minha mãe, meu irmão, minha cunhada e meu sobrinho. Os dois são aficionados por futebol, como fui um dia, e houve choro e ranger de dentes por duas horas emocionantes, de futebol de altíssima qualidade, inclusive porque a cunhada, argentiníssima apoiada pela sogra, fazia um contraponto huxleyiano à nossa solidariedade de ex-colônias portuguesas.
Mas não nos valeu a alegria da galera, nem a torcida brasileira, contra a imensidade azul dum Messi de sabedoria borgeana, aos quase quarenta anos, praticamente ancião no contexto ludopédico. O sonho veio abaixo, e o garoto caboverdiano caiu em prantos no estádio. Quase chorei junto, mas engoli.
Quero defender aqui uma teoria futebolístico-literária: na formação dos nossos jovens, existem os apanhadores em campo de futebol e os cacundeiros destruidores de sonhos. Os primeiros, como se sabe, ficam à beira do abismo salvando crianças desavisadas que quase caem por lá. Os segundos empurram os sonhos pueris abismo abaixo. Todo mundo gosta dos apanhadores e abomina os cacundeiros, mas farei a defesa desses vilões incompreendidos.
É que, no passado, cada cacundeiro foi ele mesmo uma criança que acabou despencando muito rápido. O cacundeiro é antes de tudo um compadecido dos meninos sonhadores. Esse garoto choroso era eu em 1982, sem entender bem por que tínhamos perdido para a Itália, apesar de sermos melhores. Paolo Rossi foi meu cacundeiro: nem sempre se faz justiça, nem sempre vence o melhor, talento não é tudo – e a retranca pode prevalecer.
Ao final do jogo de Cabo Verde, fui cacundeiro: expliquei a meu sobrinho toda a feição de mercadoria do futebol, como ela rouba a poesia etc. O garoto me ouviu perplexo, porque acabava de fazer quinze anos. Quinze – e já tem os sonhos arrasados pela Fifa e pelo tio impiedoso. Mas entendam e se compadeçam de mim: como não quero que ele se decepcione tão tarde quanto eu, decidi dizer-lhe a verdade brutal. O que eu não esperava era a pergunta que viria:
– Mas então por que você ainda acompanha futebol?
Era a pureza de coração que perguntava, murmurando que a vida é bonita, é bonita, e é bonita. Emudeci, porque nós cacundeiros somos mais dados à violência do pragmatismo do que à meditação dos mistérios. Fui salvo por meu irmão, que jamais deixou os sonhos morrerem. Ele mesmo criou uma nova categoria de formação – a dos miguilins, sempre alegres, que não dependem da proteção de apanhadores nem se entregam à violência de cacundeiros. Estávamos juntos ali porque meu irmão tinha organizado tudo, articulado milhares de quilômetros e voos entre hemisférios. Mais douto que qualquer Guimarães Rosa, Borges ou Salinger, ele sentenciou:
– Acompanho futebol em memória de meu pai.
Um arrepio me correu o corpo, e voltei às tardes de domingo no Canindé e no Morumbi, e aos incontáveis jogos na tevê, e aos debates sobre história do futebol que vazavam pela política e pela literatura, à mesa de jantar – o que estava acontecendo ali mesmo, mais de vinte anos depois. Antes de todas as estatísticas, de Pasolini, Nelson Rodrigues, Tostão, Juca Kfouri, Zé Trajano, Casagrande e Chico Buarque, houve nosso pai – boleiro, torcedor, positivo, cujo projeto de canoa tem agora continuidade com minha mãe, meu irmão, minha irmã e meu sobrinho, miguilins sempre muito alegres. Eu é que pulei fora do barco e fiquei matando sonhos.
Mas finalmente aprendi. Domingo, mesmo 5 de julho – exatos quarenta e quatro anos depois da tragédia do Sarriá, nova catástrofe. Quero dizer a meu sobrinho, e aos leitores, que o Brasil tem muitos motivos para se orgulhar. A literatura e as artes todas. A canção popular de infinitos nomes, que não deve nada a nenhum país do mundo. E a poesia das seleções do passado.
Verdade cristalina: neste domingo não houve poesia nem drible. Garra não vi nenhuma, nem entusiasmo, nem festa. Na tela, garotos brasileiros desatam a chorar, mas eu não: sempre alegre, Miguilim, sempre alegre. Até porque, hoje – pelo menos hoje – o cacundeiro não fui eu.

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