A literatura como lugar de acolhimento

As crianças precisam de uma boa dose de fantasia para construírem sua própria realidade

Foto: Henrique Farias.

Cristiane Luz é coordenadora pedagógica de Língua Portuguesa

“Mãe, tá chegando?”

As crianças costumam procurar o que lhes dá prazer: as atividades divertidas, que as façam rir, criar, compartilhar, experimentar. Ficar esperando, inerte, dentro de um automóvel, sem nenhum incentivo a alguma brincadeira, pode parecer (e é!) chato demais. Elas precisam ser estimuladas a usarem seus pequenos cérebros em crescimento, a fazerem novas conexões, descobrirem novos padrões, despertarem a imaginação. Claro que também precisam de momentos de ócio, daquele tédio sepulcral que vem sendo cada vez mais raro depois do surgimento das telas, mas aqui focaremos em outro ponto.

Para além das longas viagens, os pequenos precisam ter a imaginação estimulada nos momentos de rotina, precisam ter oportunidades diversas de criarem suas percepções sobre o mundo que os rodeia. E uma forma magnífica de proporcionar isso é a partir da leitura, especialmente em nossa realidade cada vez mais digital.

Qual foi a última vez que você leu um livro para uma criança? Em que momento você também se deixou perder nas linhas e entrelinhas de uma bela narrativa?

Ainda mais do que nós, adultos, as crianças precisam dessa dose de fantasia para darem asas à imaginação e para construírem sua própria realidade. Uma criança não vai escolher sozinha a leitura de um livro se não tiver esse estímulo ou exemplo dentro de casa – digo, acontece, sim, mas é bem raro. Ela é como uma esponja, principalmente nos primeiros anos de vida.

Quando uma criança tem acesso a diferentes gêneros e estilos de escrita, não é só sua imaginação que está sendo incentivada. Essa parte sabemos com segurança, afinal, quem não se divertiu quando pequeno e nem viu a hora passar com Vinte Mil Léguas Submarinas? A série Vagalume? E com A Droga da Obediência, os incríveis Karas, tentando solucionar o mistério? Nossa infância também passou por histórias que nos marcaram.

Mas falo aqui do lugar do conhecimento, de como uma criança se apropria de situações da narrativa para compreender melhor as situações cotidianas (ou não tão cotidianas assim). Ela não precisa ter passado pelo trauma da separação de um amigo querido para compreender a dor que um personagem passou por ter seu companheiro indo morar em uma cidade longínqua. Ela vai sentir, ela vai sofrer junto, ela vai elaborar a própria realidade a partir de todas essas vivências possíveis, ela saberá preparar o terreno das emoções e ter maior repertório de ação para, quando algo similar acontecer, ela estar preparada.

Mas por onde começar? O que oferecer para essa garotada que parece que está sempre dois passos à frente? Ora, o que for do gosto de cada um. Por que não criar um momento de leitura compartilhada de um livro com a família toda, ou só de leitura silenciosa, cada um com seu exemplar? Assim como se costuma fazer com os filmes, sabe? Todos juntos com um objetivo comum.

Se os livros físicos forem mais complicados de encontrar, recomendo fortemente a plataforma do MEC Livros (www.meclivros.mec.gov.br), em que se pode ler de graça. Os livros Chupim e Amoras são leituras ótimas para serem feitas coletivamente.

A ideia é que as crianças estejam tão envolvidas que, quando estiverem no meio de uma aventura, não queiram saber se estão chegando ao destino, mas que tenham aproveitado toda a jornada, a ponto de terminarem a leitura com um “Mas já?”.

“Taking Flight”, do escultor Seth Vandable, em Livermore.

Sobre Jornal de Toronto (876 artigos)
O Jornal de Toronto nasce com o intuito de trazer boa notícia e informação, com a qualidade que a comunidade merece. Escreva para a gente, compartilhe suas ideias, anuncie seu negócio; faça do Jornal de Toronto o seu espaço, para que todos nós cresçamos juntos e em benefício de todos.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Jornal de Toronto

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo