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Lar, nem sempre doce lar


A necessidade de ficar em casa pela pandemia expôs a dura realidade de famílias mundo afora, onde um lar que atenda às mínimas necessidades é um luxo.


José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

A necessidade de ficar em casa pela pandemia de coronavírus expôs a dura realidade de famílias mundo afora, onde um lar que atenda às mínimas necessidades é um luxo. É imenso o número de pessoas que vivem não em casas, mas em casebres precariamente construídos, sem saneamento básico, chegando a faltar a essencial água para lavar as mãos e impedir a disseminação da doença. Além disso, abrigam muitas pessoas em pequeno espaço, impedindo um mínimo de distanciamento social e o isolamento dos enfermos.

No Brasil, as favelas por todo o país são uma chaga social praticamente ignorada pelos governos. As políticas públicas muitas vezes não contemplam as periferias onde se instalam. Em casos como o Rio de Janeiro, estão ao lado de bairros de classe alta, mas mesmo assim seguem invisíveis aos olhos dos governantes. Muitas vezes instaladas em áreas de risco, são as primeiras a serem atingidas quando ocorrem tempestades, com correntezas e desmoronamentos que levam os poucos pertences de seus moradores, e até causam mortes. Assim, não é surpresa que sejam áreas onde o coronavírus se propague com mais facilidade, com expressivo número de infectados e mortos. Há, ainda, o drama dos sem-teto, com um crescente número dos que vivem nas ruas, não dispondo sequer de um casebre.

Em países frios como o Canadá, a teoria do Estado mínimo, defendida pelos que vivem na opulência, não funciona tão bem assim. A bem de impedir uma grande mortandade a cada inverno, os governos obrigam-se a fornecer casa e calefação a seus cidadãos. Embora não seja um sistema perfeito, pois temos mendigos nas ruas aqui no Canadá, é algo mais monitorado, pelo menos impedindo que se criem favelas e que haja gente morando embaixo de pontes.

A ganância imobiliária, porém, atinge até a classe média. Empobrecida, é confinada a viver em espaços cada vez menores. No Canadá, os basements (porões) das casas, idealizados como um espaço para estoque de suprimentos e área de lazer, cada vez mais são transformados em apartamentos independentes, alugados para ajudar a pagar hipotecas crescentes.

Os apartamentos, por sua vez, por todo o mundo, têm área construída cada vez menor. Alguns “modernos” mais se assemelham a gaiolas para pássaros ou ratos de laboratório, ou jaulas de zoológico. Já vi apartamento em Toronto, novo e caro, que conta com área mínima para circular. Na sala-cozinha, só há um estreito caminho em volta da pequena mesa de refeições e da minúscula mesa de centro da sala. No dormitório, a cama ocupa praticamente todo o espaço, com as portas do closet quase tocando-a. Enfim, não há espaço livre no chão para uma criança brincar ou sequer abrir uma mala. Fazer exercícios físicos em casa, como se sugere nesta quarentena, seria impossível, pois um tapete de ioga serviria como tapete da sala.

Como passar meses em espaços tão diminutos? Um autor que li recentemente afirma que o alto grau de suicídios nas áreas polares não se devia tanto ao terrível inverno ou às noites de seis meses, mas principalmente ao confinamento em casas pequenas (uma estratégia para economizar em calefação). A tese me parece ter sentido, pois, quanto menor a gaiola, mais enlouquecedor é viver nela. Não precisar de meia-dúzia de passos para se deslocar de um cômodo a outro, pois tudo está tão amontoado, gera um estresse tremendo. As pessoas se batendo dentro de casa, além disso, é causa de animosidades.

A pandemia, enfim, nos faz voltar ao capítulo do livro Como construir a humanidade. Se o primeiro item é um sistema de saúde decente e inclusivo a todos, o passo seguinte é termos moradias dignas para todos. Neste momento, nos damos conta de como nossas casas são vitais em nossas vidas, e que cada ser humano deve estar não só devidamente abrigado, mas também em algo que não se assemelhe a uma gaiola: precisamos de um lar.

Sobre José Francisco Schuster (37 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, José Francisco Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, Schuster tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil", cujas 186 entrevistas podem ser ouvidas em podcasts aqui em nosso site.

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