Sua carteira de investimentos está preparada para a era da Inteligência Artificial?
Lúcio Flávio Rodrigues é consultor de investimentos
Como advisor aqui no Canadá, tenho acompanhado de perto uma transformação que, na minha visão, será uma das maiores mudanças econômicas das próximas décadas. E eu, sinceramente, acredito que muita gente ainda está subestimando o tamanho desse impacto.
A Inteligência Artificial não vai apenas “ajudar empresas a serem mais produtivas”, ela tem o potencial de fazer modelos de negócio inteiros desaparecerem – exatamente como aconteceu com as locadoras de vídeo quando a Netflix chegou, ou com as agências de viagens tradicionais depois do Google. E o mercado financeiro, que sempre olha à frente, já começou a reagir.
Quando o futuro chega antes da hora
Vou dar dois exemplos concretos para você entender.
A Chegg, uma empresa americana que ajudava estudantes universitários com tarefas e exercícios, valia cerca de US$14,5 bilhões em 2021; hoje, suas ações caíram 99% desde o lançamento do ChatGPT. Por quê? Porque os estudantes simplesmente deixaram de pagar US$20 por mês quando perceberam que o ChatGPT fazia o mesmo trabalho de graça e melhor. Em 2025 e 2026, a empresa demitiu mais de 60% dos seus funcionários e está hoje lutando para não ser excluída da bolsa de Nova York.
O segundo caso é ainda mais ilustrativo. A Teleperformance é uma gigante francesa de call centers, com quase 490 mil funcionários no mundo todo. Em fevereiro de 2024, a fintech sueca Klarna anunciou que seu novo assistente de IA, criado em parceria com a OpenAI, estava fazendo o trabalho equivalente a 700 atendentes em tempo integral, com o mesmo nível de satisfação dos clientes. No dia seguinte, as ações da Teleperformance despencaram 29%. Não foi a IA que substituiu seus funcionários – foi apenas a possibilidade de que isso aconteça que apagou bilhões em valor de mercado em um único dia.
Esse é o ponto que quero deixar claro: o mercado não espera a transformação acontecer. Ele antecipa.
Quem está na linha de tiro, e quem está se posicionando
Na minha opinião, vários setores tradicionais estão diretamente ameaçados: call centers, softwares empresariais tradicionais, escritórios de advocacia focados em tarefas repetitivas, seguradoras burocráticas, empresas de processamento administrativo, e até partes do setor bancário.
Por outro lado, vejo oportunidades históricas surgindo. A NVIDIA virou uma das empresas mais valiosas do mundo porque seus chips alimentam praticamente toda a infraestrutura de IA do planeta. A Microsoft ganhou força integrando IA ao Office e ao Azure. Google, Amazon e Meta estão em uma corrida bilionária pela mesma fatia desse novo bolo.
E aqui no Canadá não é diferente. Bancos como RBC, TD e Scotiabank já investem pesado em IA porque entendem que eficiência operacional virou questão de sobrevivência. Empresas ligadas a infraestrutura de dados, energia, cibersegurança e cloud computing também tendem a se beneficiar – afinal, IA exige capacidade computacional gigantesca, energia abundante e proteção de dados cada vez mais sofisticada.
A pergunta que importa
Cada vez mais, meus clientes chegam me perguntando não só onde investir, mas algo bem mais profundo: quais modelos de negócio ainda serão relevantes daqui a 5 ou 10 anos? Essa, talvez, seja a pergunta mais importante deste momento. Enquanto muita gente ainda tenta entender o que é Inteligência Artificial, investidores institucionais já estão reposicionando bilhões de dólares – saindo de empresas presas ao passado e entrando nas que vão construir o futuro.
A pergunta que fica é simples: o seu patrimônio está acompanhando esse movimento, ou ainda depende de empresas que podem virar a próxima Chegg?

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