Da política à geopolítica: a Copa de 2026 revelou um mundo em conflito

O torneio se tornou um retrato ampliado das transformações políticas, econômicas e geopolíticas que caracterizam a atual ordem internacional

Foto: Thorsten Frenzel.

André Oliveira & Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto

A Copa do Mundo de 2026 consolidou-se como muito mais do que o maior evento esportivo do planeta. O torneio se tornou um retrato ampliado das transformações políticas, econômicas e geopolíticas que caracterizam a atual ordem internacional. Disputada majoritariamente nos Estados Unidos, com México e Canadá como coanfitriões, a competição mostrou que o futebol contemporâneo dificilmente permanece imune às disputas por poder, influência e legitimidade. Em um contexto de inflação persistente em várias regiões do mundo, protecionismo comercial e crescente fragmentação da governança global, a Copa acabou funcionando como uma vitrine das tensões que moldam o século XXI.

Ainda antes do apito inicial, os efeitos da conjuntura econômica mundial já eram perceptíveis. O aumento do custo de vida elevou significativamente os preços de passagens aéreas, hospedagem e alimentação, enquanto o sistema de comercialização de ingressos foi alvo de críticas por valores considerados proibitivos que restringiram o acesso de grande parte dos torcedores.

Em diversas cidades-sede surgiram questionamentos sobre a crescente mercantilização do espetáculo esportivo, reforçando a percepção de que a Copa do Mundo se tornou um produto global cada vez mais direcionado a consumidores de maior poder aquisitivo. A promessa de um evento universal encontrou limites concretos diante das barreiras econômicas impostas ao público.

As tensões geopolíticas também atravessaram a competição. As restrições migratórias adotadas pelo governo dos Estados Unidos criaram dificuldades para algumas delegações, especialmente a do Irã, obrigada a estabelecer sua base de preparação no México e autorizada a ingressar em território norte-americano apenas nos dias das partidas.

A solução exigiu intensas negociações diplomáticas em meio às delicadas relações entre Washington e Teerã, demonstrando que, mesmo sob a bandeira da integração promovida pelo esporte, as disputas internacionais continuam condicionando decisões logísticas e institucionais. O episódio evidenciou que a diplomacia esportiva permanece profundamente dependente da conjuntura política internacional.

O ambiente político ganhou contornos ainda mais complexos com o chamado “caso Balogun”. Após a expulsão do atacante norte-americano Folarin Balogun na partida contra a Bósnia, o presidente Donald Trump defendeu publicamente a revisão da punição e manteve contato com o presidente da FIFA, Gianni Infantino. A suspensão da sanção disciplinar acabou sendo revertida, permitindo que o jogador atuasse no confronto seguinte, diante da Bélgica.

O episódio desencadeou fortes reações de federações, dirigentes e analistas, alimentando um debate internacional sobre a autonomia das entidades esportivas e os limites da interferência política na governança do futebol. Independentemente da legalidade do procedimento adotado pela FIFA, a controvérsia colocou em xeque a percepção de imparcialidade da competição e evidenciou como decisões esportivas podem rapidamente adquirir dimensão diplomática e institucional, lançando dúvidas sobre a autonomia das instâncias disciplinares do futebol internacional.

Outra demonstração de que a Copa extrapolou os limites do esporte ocorreu com a seleção do Egito. Após o jogo contra a Austrália e a classificação para as oitavas de final, o técnico Hossam Hassan exibiu uma bandeira da Palestina e declarou que “quem não sente o sofrimento do povo palestino não tem humanidade”. O gesto repercutiu internacionalmente e recolocou a guerra no Oriente Médio no centro das atenções durante o torneio.

A manifestação deixou claro que jogadores, treinadores e seleções também atuam como agentes simbólicos da política internacional, utilizando a visibilidade do futebol para expressar posicionamentos sobre temas humanitários e conflitos globais.

Ao longo da competição, o governo Trump também reafirmou uma política externa marcada pelos confrontos, retomando instrumentos protecionistas e ampliando disputas comerciais com parceiros estratégicos.

Nesse contexto, a Copa do Mundo de 2026 evidenciou, mais uma vez, que o futebol permanece suscetível à instrumentalização política por lideranças que buscam converter a visibilidade do esporte em capital político e influência internacional. A atuação de Donald Trump ao longo do torneio reforçou essa dinâmica ao utilizar o evento como plataforma para ampliar sua projeção, fortalecer sua narrativa político-eleitoral e potencializar o alcance simbólico dos Estados Unidos no cenário global.

Longe de representar uma novidade histórica, essa estratégia reafirma um padrão recorrente de apropriação dos grandes eventos esportivos por projetos de poder, tornando cada vez mais tênues as fronteiras entre esporte e política e confirmando que o futebol continua sendo um espaço privilegiado de disputa simbólica e de projeção de soft power nas relações internacionais.

Sobre André Oliveira & Rodolfo Marques (51 artigos)
André Oliveira (à esquerda) é advogado com especialização em Direito Público, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco e membro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) desde 2009. Rodolfo Marques é analista judiciário, publicitário e jornalista; Mestre (UFPA) e Doutor (UFRGS) em Ciência Política, e professor de Comunicação Social na Universidade da Amazônia e na Faculdade de Estudos Avançados do Pará.

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