Democracia sob cerco
André Oliveira & Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto
Em meio às transformações geopolíticas do século XXI, a democracia liberal vive talvez um de seus momentos mais delicados desde o fim da Guerra Fria, no final dos anos 1980. A literatura recente da Ciência Política aponta para uma erosão gradual, por vezes silenciosa, das instituições democráticas, impulsionada não por golpes clássicos ou rupturas abruptas, e, sim, pela corrosão interna promovida por líderes eleitos que utilizam os próprios mecanismos democráticos para enfraquecer freios e contrapesos.
Autores como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em How Democracies Die (2018), e Yascha Mounk, em The People vs. Democracy (2018), alertam que a ameaça contemporânea não surge necessariamente da ruptura institucional explícita, mas da naturalização do discurso antissistema, do ataque à imprensa e da transformação da política em permanente estado de guerra cultural.
Os Estados Unidos tornaram-se um dos exemplos mais emblemáticos dessa tensão. A ascensão, em 2016, e o retorno, em 2025, de Donald Trump evidenciaram como democracias consolidadas também podem experimentar processos de desgaste institucional. Sob a lógica do confronto permanente, da desinformação e do estímulo à polarização extrema, o trumpismo consolidou uma nova gramática política baseada na contestação da legitimidade eleitoral, na hostilidade contra organismos multilaterais e na relativização das normas democráticas. Em tempos de guerras internacionais, disputas econômicas globais e medo social crescente, líderes autoritários encontram terreno fértil para ampliar poderes e apresentar soluções simplificadas para problemas complexos. A democracia, nesse contexto, passa a ser retratada como lenta, frágil ou incapaz de responder às ansiedades coletivas.
Ao mesmo tempo, os últimos anos têm demonstrado que os regimes autoritários não são invencíveis. No início de 2026, a queda política de Nicolás Maduro, mesmo da maneira pouco ortodoxa com que ocorreu, após anos de crise institucional, econômica e humanitária na Venezuela, revelou os limites do autoritarismo sustentado exclusivamente pelo controle estatal e pela repressão. Mesmo diante de estruturas profundamente capturadas, a pressão social interna, o isolamento internacional e a deterioração econômica acabaram corroendo a sustentação política do chavismo tardio. A experiência venezuelana tornou-se um alerta internacional sobre como democracias podem ser lentamente desmontadas até atingirem níveis críticos de degradação institucional.
Fenômeno semelhante ocorreu na Hungria, onde a derrota de Viktor Orbán encerrou um ciclo de 16 anos de poder marcado pelo chamado modelo de “democracia iliberal”. Orbán tornou-se referência mundial para movimentos nacionalistas e conservadores radicais ao promover reformas que concentraram poder, enfraqueceram a imprensa independente e reduziram a autonomia de instituições judiciais. Sua derrota eleitoral em 2026 foi interpretada por analistas internacionais como um significativo revés para a extrema direita global. Este recente caso húngaro sugere que sociedades democráticas ainda mantêm capacidade de reação quando há mobilização social, unidade oposicionista e resistência institucional minimamente preservada.
Ainda assim, seria precipitado interpretar esses episódios como uma vitória definitiva da democracia liberal. O autoritarismo contemporâneo é resiliente, adaptável e profundamente conectado às dinâmicas digitais e emocionais da política atual. Redes sociais transformaram ressentimentos em capital político, enquanto crises econômicas, desigualdades crescentes e inseguranças identitárias alimentam discursos nacionalistas e antipluralistas.
O grande desafio das democracias modernas talvez não seja apenas derrotar líderes autoritários nas urnas, mas reconstruir confiança pública nas próprias instituições democráticas. Sem inclusão social, transparência e capacidade de resposta efetiva às demandas da população, a democracia continuará vulnerável ao apelo de figuras que prometem ordem, força e soluções imediatas.
Nesse sentido, a célebre frase de Winston Churchill, proferida na Câmara dos Comuns em 1947, permanece profundamente atual: “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que foram experimentadas”. A frase não representa um elogio ingênuo ao sistema democrático, mas um reconhecimento crítico de suas imperfeições estruturais.
Democracias são graduais, conflituosas e frequentemente contraditórias. Todavia, continuam sendo os únicos regimes capazes de permitir alternância de poder, liberdade de expressão e possibilidade de correção dos próprios erros sem recorrer à violência sistemática.
Em tempos de radicalização global, talvez a principal esperança resida exatamente nessa imperfeição: a democracia falha, hesita e enfrenta crises, mas ainda preserva a capacidade de se reinventar antes que o autoritarismo transforme divergência em silêncio.

Deixe uma resposta