O sol nascerá
Carlos Rogério Duarte é escritor e editor
– Você vai sentir saudades do sol.
Assim um amigo pressagiou minha mudança para o Canadá. Talvez ninguém tenha dito com essas palavras, então digo eu: o sol é o melhor amigo dos brasileiros. É de Mário de Andrade a metáfora da Sol – assim mesmo, no feminino – morando orgulhosa na avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Para Cartola, o sorriso e o amor chegariam junto com o sol, depois da tempestade. No verão das redes sociais é aquela festa de pernas bronzeadas com piscina ou mar ao fundo, óculos escuros e mão em hang loose, celebrando a estrela máxima.
Pois declaro que nem tanto ao sol, nem tanto à sombra. Subverti o ditado para dizer que nem toda soalheira é boa. Lembro-me da miséria nas primeiras páginas de Vidas Secas e dos retirantes do Portinari – do MASP também tenho saudades, por mais que os últimos verões em São Paulo tenham sido infernais. Dante e Drummond nunca passaram o que tive de passar: bem no meio do caminho da minha vida não tinha pedra, tinha asfalto em brasa, ar envenenado e a gente implorando para chover, mas não chovia.
Digo tudo isso para celebrar o sol que já se abre no Canadá, mais tímido do que a Sol brasileira – assim mesmo, no feminino – tropical e soberana, inesquecível. Mas esta aqui não deixa a desejar, não. Nestas plagas onde amarrei meu burro tem praia de grandes lagos, aliás água é o que não falta nesta nação muito ao norte. Não é só no Brasil que sobra água, embora falte, vejam só.
Cismo que, se não houvesse sol, não haveria sombra e água fresca, de que Rita e eu gostamos muito. Como esta é uma crônica de verão, para ler à beira da piscina ou na praia num dia bem quente, não vou complicar as coisas – digo apenas que prefiro ficar bem quieto, à sombra e à fresca descansante. Aí me lembrei do presságio do amigo e entendi que o abrigo sob a árvore só tem graça se o sol estiver crestando doido lá fora – memórias de Belém, Alto Paraíso, Chapada Diamantina, Salvador, Rio de Janeiro e Floripa, onde tudo é sol. Melhor ainda se tiver tempestade antes – aqui costuma ser de neve, em horas escuras e longas, que precedem estes dias muito claros.
Já começo a sentir falta daquela brancura toda, aliás. E Drummond me explicou: no elevador, penso na roça; na roça, penso no elevador.

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