Entre a alvorada e o crepúsculo
Rogério Duarte é escritor e editor
Nasci no umbral do verão para o outono, no Brasil, em 21 de março. O professor de geografia da sétima série sentenciou: aquele dia era aziago porque anunciava frio, dias curtos e noites longas. Como ninguém celebrava a chegada do outono, concluí que ninguém comemoraria o meu aniversário, de modo que fiquei velho ainda quando era menino. Melhor assim: ausência de festa é sempre melhor do que festa vazia. No mais, sempre preferi a noite ao dia e nunca gostei tanto assim da quentura de dezembro. Marina dizia que o verão traz o calor no coração, mas ninguém menos do que Elis Regina e Tom Jobim me contaram ainda jovem que as águas de março prometiam vida.
É de vida que se trata, afinal – e, como todos sabemos, ela muda. Agora estou noutro hemisfério, cercado d’águas muitas, infindas, e o meu aniversário marcou o início da primavera, confirmando o que sempre suspeitei, mas nunca tive coragem de dizer: que outras estações também valem a pena, minhas amigas e meus amigos. Nem só de tostar no sol vive a humanidade. A primavera aqui no Canadá é um espetáculo das flores, do urso que nos cruzou o caminho no estacionamento e de uma passarada enorme e gritadeira que deixaria doido qualquer Macunaíma.
E agora vem chegando o outono, e todas as pessoas me anunciam que é lindo, e que as árvores ganharão cores jamais vistas por um brasileiro, sempre muito mergulhado em tons de verde. Sucessivas gerações de nossos artistas mergulharam na exuberância das penhas mineiras, das palmeiras e sabiás, das incontáveis antropofagias: a arte e a natureza do Brasil me organizam o eixo e o olhar, sem dúvida. Mas é graças a elas que tenho os poros abertos a tudo que me cerca.
Viver aqui é assim: num passeio de barco me assombrei com a imensidão do Lago Superior (que ainda não mudou de nome, nem deve mudar), porque me lembrou a Baía de Santo Antônio se abrindo pra de Marajó – águas tremendas de lá e de cá, cada uma à sua maneira. Sault Ste. Marie e Belém do Pará são muito diferentes, mas outro dia bateu aqui um bafo tão quente, mas tão quente, que num átimo pensei estar no Ver-o-Peso. Meu ponto de partida é (e não poderia deixar de ser) o Brasil, mas estou aqui para conhecer as paisagens imortalizadas pelos artistas do Group of Seven, apreciar essas tais cores, beber duma água que não beberia, mas hoje já bebo.
Para que tudo fique como sempre foi, pensei em mudar meu aniversário para 21 de setembro, data oficial do início do outono por aqui, mas já não sou quem era. É de vida que se trata, afinal, e a vida muda sempre; também eu estou em transformação. Talvez aqui eu prefira dias mais longos, que vão até às nove da noite, porque um vento rigoroso, que sopra do norte, anuncia a meu corpo o frio que se aproxima. No parque na frente de casa, centenas de gansos cantam muito quando estão pousando, como se anunciassem que tudo passa sobre a Terra, inclusive minhas certezas e as brigas que comprei.
Vinte e um de março aqui não é vinte e um de março lá – e já que os dias vão ficando mais curtos, entrego meu corpo à noite extensa, abro os olhos às cores que ainda não vi e ouço no vento uma voz outra, mas que eu já conhecia, de caminhar em alvoradas e crepúsculos, cercado dessas águas infinitas.

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