Emigrar ou Imigrar?

(Isso não é uma pergunta de gramática)

Foto: Mana.

Cesar Barbosa é psicanalista e mora no Canadá desde 2010

Outro dia me peguei pensando na diferença entre emigrar e imigrar. Não no contexto gramatical, mas sim na ideia por trás dessas palavras. Emigra quem sai, imigra quem chega. É o mesmo indivíduo, mesma mala, mesma viagem, o que muda é o ponto de onde se olha.

Curioso é que quase todo mundo diz “imigrante”, com i, raramente alguém se apresenta como emigrante. Talvez seja só maneira de falar, mas talvez seja também um sinal de que, depois de um tempo fora do seu país de nascença, passamos a nos olhar a partir do país que nos recebeu. E aí a pergunta acaba sendo de outra ordem. Se as duas palavras descrevem a mesma pessoa, por que a gente costuma se sentir mais uma do que a outra?

No Brasil, por exemplo, antes de sair, a gente sabia mais ou menos quem era. Não porque pensasse muito nisso, mas porque os outros sabiam por nós. Éramos o filho da fulana, o amigo de infância, o colega do trabalho, o vizinho, com um jeito de falar e de se portar que ninguém achava diferente. O sotaque poderia criar algum ruído, mas nada que nos deixasse desconfortáveis.

Quem emigra sai levando a mala mas deixa essa rede para trás. Chega em um lugar onde ninguém sabe de onde viemos, nem quem éramos. De repente somos “o brasileiro”, “a brasileira”, alguém com sotaque estranho, um nome difícil de pronunciar, um currículo que ninguém sabe ler direito. O imigrante começa, muitas vezes, como uma pessoa reduzida. São menos palavras, menos história, menos lugar.

Isso pode doer, mas não é só uma dor de perda. Não ser conhecido também é uma forma de liberdade. Longe do olhar de quem sempre nos viu de um certo jeito, algumas pessoas descobrem partes de si que não tinham espaço antes, ou que nem sequer conheciam. Outras se agarram ao que eram com mais força do que nunca e passam a ser mais brasileiras no lugar onde estão do que eram no Brasil.

Ninguém se constitui sozinho, então esse olhar dos outros não é detalhe. Desde cedo é nele que aprendemos quem somos, e seguimos nos reconhecendo, a vida inteira, no olhar de quem está à nossa volta. Talvez seja por isso que mudar de país mexa tanto com a gente, não mudamos só de endereço, mudamos de espelho.

E talvez por isso a escolha da palavra diga alguma coisa. Quem ainda se pensa como alguém que saiu talvez esteja com o coração voltado para o que ficou. Quem se pensa como alguém que chegou talvez já tenha deslocado, aos poucos, o centro da sua própria vida. E há quem oscile, é emigrante no telefonema com a mãe e imigrante na reunião de trabalho.

Nenhuma das duas posições é a certa. O que costuma pesar é ficar preso numa só. Viver fora como quem ainda não saiu do Brasil, ou tentar apagar o lado de lá pra caber aqui. Entre as duas palavras existe um espaço e é nele que a maioria de nós vive.

Fica então a pergunta, sem uma resposta certa: hoje, qual das duas palavras você usaria para si mesmo? E será que é a mesma de quando você chegou?

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