É verão. Construa, e eles virão
Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto
Pois eis aí mais um verão. Todo ano a mesma coisa, a gente fica naquela expectativa para sair sem casaco… Que vida besta, éramos seres que começavam a vida na expectativa do Natal pra ganhar presente, para então passarmos à expectativa do Carnaval pra farrear por 4 dias sem parar. De repente, cá estamos em um mundo onde a nossa grande expectativa, todo ano e independente de idade, é poder ir a um churrasco. Mas há uma coisa interessante que o verão pode trazer, especialmente em um ano de Copa como esse: as visitas do Brasil. Se você estiver preparado, pode ser uma experiência prazerosa.
A princípio, Toronto é uma cidade meio chata e você também não é lá nenhuma Xuxa pra alegrar os dias da criançada, então a gente não faz ideia do que suas visitas têm na cabeça pra vir pra cá. Mas depende muito da visita, saiba você. Meu irmão, por exemplo, apreciou a paz. Segundo ele, em BH, basta você achar que conseguiu um pouquinho de silêncio num sábado à tarde pra tirar um cochilo, e logo ouvirá uma voz ao longe dizendo “alô som, teste, sssom, um, dois, som…”.
Aquela visita que gosta de passeios desafiadores, atrações estonteantes, História… É, essa aí pode esquecer. Vai passar raiva e a culpa será sua. Vai chegar na Casa Loma esperando um castelo do tempo do Dom Pedro, e vai encontrar um do tempo do Pedro Sampaio. Escavações arqueológicas encontram marinas e barcos… de 1900. Essa arqueologia tá meio furada, até a Dercy Gonçalves é de 1900! Aí você acaba onde? Na magnífica Niagara Falls outra vez! Pela centésima vez. Mas não pense que você é o único que sofre tendo que ir lá toda hora não. Suas visitas, por mais deslumbradas que sejam, não aguentarão ir lá duas vezes. Minha mãe jogou 10 dólares numa máquina do cassino pra ver como funcionava, achou uma cretinice e quis ir embora. Senso crítico de mãe maltrata às vezes, mas também ensina a tratar certas coisas com o desprezo que elas merecem.
Visitas sempre esperam conhecer um mundo novo e diferente, mas quando chegam aqui querem que tudo seja exatamente igual ao Brasil. Portanto, ao prevenir as visitas sobre rato, bed bug, e sentar na cadeira-caminha de mendigo no metrô, prepare-se pra ser tratado como enjoado e sistemático que tá precisando casar, porque tá há muito tempo morando sozinho e tá ficando cheio de mania. Como assim casas no suntuoso Canadá podem ter rato? Com certeza, se porventura aparecer um, é só ligar pra prefeitura e eles virão resolver o problema, não? Acreditem, eu já ouvi coisas do tipo. E enquanto o visitante do Brasil acredita nisso, eu sigo aqui treinando gatos. O povo simplesmente não acredita que um bed bug possa acabar com a sua sanidade mental. O percevejo brasileiro foi praticamente erradicado, e como não há no Brasil, a conclusão é de que não pode haver no Canadá. Ah tá… Senta aqui na cadeirinha tripla do metrô que eu vou te apresentar meu amigo Mordílseu Bundovisky.
Mas alegrai-vos, pois visitas no verão dão uma energizada na vida da gente. Elas te forçam a tirar o ranço do inverno e ir pra rua visitar lugares que você nunca teve interesse de ir, além de comer no Mandarin. E é só também, porque Toronto não vai ter muito mais o que oferecer não. “Quê? Como ousas? Cidade linda esplêndida, eu cheguei outro dia e já achei o máximo!” Jovem, pra quem acabou de chegar, Manhumirim é Berlim. Para de deslumbramento besta. Aliás, a Globo pode fazer Globo Repórter de Nova York, babar ovo de americano até enjoar… não adianta, a gente aqui sabe: não há cidade norte-americana nenhuma que tenha muita graça.
Adeus, cinco letras que choram.

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