Os olhos puros do artilheiro
Carlos Rogério Duarte é escritor e editor
Da série “Crônica da Copa”
A cada quatro anos, a mesma memória: família reunida no apartamento de minha avó, perto do Largo do Cambuci, em São Paulo, para assistir ao jogo do Brasil. Era 1982, eu tinha apenas seis anos, mas me lembro de tudo. O volume altíssimo da tevê e os gritos do meu pai, que só se exaltava em jogos, me entregaram pela primeira vez ao futebol. O apartamento cheirava a bife na manteiga, primeiríssima memória gulosa da infância, e tinha muito verde nos sofás. Uma festa de barulhos, homens em desvario, comida e bebida indo e voltando.
E uma frustração terrível – Paolo Rossi fez três gols para a Itália, que se tornaria tricampeã naquele ano. Meu pai, inconsolável, insistia que a seleção de 82 só não era melhor que a de 70. E o futebol se fixou em mim, a partir daquele dia, de duas maneiras – a dor terrível da derrota imerecida e as saudades de uma época de ouro que não vi nem vivi.
Pois foi essa memória toda que me veio no sábado passado.
É claro que aqui em Sault Ste. Marie quase ninguém fala de futebol, e a cidade não se prepara para o jogo. A vida não parou, e confesso que me fez bem essa indiferença, porque não precisei correr para nada, nenhuma corneta me deu susto, e os cachorros ficaram muito quietos. Talvez alguns brasileiros tenham se reunido para assistir à partida, mas não houve fogos nem gritos indignados. Eram seis da tarde quando o escrete entrou em campo, e o narrador não se esguelou. Melhor assim.
Quando a partida começou a não dar em nada desde os primeiros minutos, o fantasma de meu pai me explicou que a seleção não vai para frente porque não treina. Os brasileiros não sabem se preparar para a Copa – nunca souberam, ele insistiu. Em vez de montar um time que joga com regularidade, apostamos no improviso e no talento sobrantes desta terra que transforma viela em estádio, latinha de refrigerante em pelota e par de chinelos em gol. Alegria de meninos como meu irmão e eu é narrar jogo à maneira de radialista – e depois criar tabelas e rodadas em futebol de botão. Sábado é dia de jogar, domingo é dia de estádio: a maravilha e a poesia dos noventa minutos contra a vida prosaica.
O jogo na tela da tevê não dá, nunca deu conta desses sonhos tamanhos: meu pai contava histórias de uma multidão de Pelés, Gilmares, Rivelinos, Eusébios, Cruyffs, Puskás, Leônidas, Friedenriches, até não haver times, um infinito de peladas em campos de várzea, matrizes de Canindé, Pacaembu, Morumbi, Maracanã – sempre com um menino goleador, de olhos puríssimos, à procura de correr para os companheiros, depois para a torcida, e se consagrar no jamais, até desaparecer.
Mas uma prosa sem metáfora, muito racional e planejada, derrotou essa poesia. Alguém comprou o futebol, a vida, as pessoas. Os talentos estão muito bem aclimatados à tática europeia, e o drible malandro está mais preocupado com a ostentação do que com a torcida, de modo que o maior espetáculo da terra, junto com o carnaval, ficou apagadiço.
Quanto mais a seleção perdeu o brilho, mais o fantasma de meu pai ganhou forma – e exigiu que eu assistisse ao jogo da Alemanha contra Curaçau. Lá estava o verdadeiro futebol, não na tática rigorosa dos alemães, que era excelente, mas na teimosia corajosa dos curaçauenses que, embora pequeninos, não se acovardaram. Morava ali, na goleada de 7×1 – conhecido placar! – o menino que fui, feito de fragorosas derrotas que não roubam a dignidade e vestígios de jogos passados repletos de poesia.

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