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Richarlyson imortal

Richarlyson Barbosa, no treino na Cidade do Galo, no Atlético Mineiro. Foto: Bruno Cantini

Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto

Saudações, almas boas.

Quase caí pra trás recentemente, ao ler em um jornal que o jogador de futebol Richarlyson fora contratado pelo Guarani de Campinas, e que logo em seguida bombas foram atiradas contra a sede do clube. Protesto porque o cara é ruim? Não pode ser. Campeão por onde passou, nome experiente num time que amarga a série B… A Globo nem chegou perto de comentar a verdadeira causa dos protestos, mas todo mundo sabe o que ocorreu em Campinas, pois o mesmo já ocorreu em todos os times por onde o cara passou: cogitou-se um dia que Richarlyson seria gay, portanto Richarlyson não pode mais jogar em lugar nenhum que a torcida se ofende.

Aí voltei lá nas antigas, naquele tempo em que o treinador Yustrick cercava o vestiário do Atlético com corda pra que “homossexuais não se aproximem para ver os jogadores tomando banho”. E a conclusão é uma só: como o universo do futebol é uma molecagem sem tamanho! Há 490 anos – acho que desde o Inter do Muriqui – um time brasileiro não ganha um mundial de clubes. Nenhum time tá valendo nada, presenças nulas no cenário mundial, só porcariada dentro de campo, tomando toco de time da Colômbia na Libertadores ano após ano – eu não falei Argentina, eu falei Colômbia! Medelín! Novela “Café com Aroma de Mulher”! Enquanto nossos times estão mais pra “Mulher com Aroma de Cachaça”, as torcidas, quando querem se ofender, chamam-se de quê? De derrotadas? De Haras de Assunção, onde só tem cavalo paraguaio? De banheiro químico? Não. Elas se chamam de Marias, de Frangas, de Bambis. Como moleques de 10 anos de idade (da nossa geração, pois os de hoje já ignoram essas bobagens), o torcedor insinua que o outro é… gay? Um bando de velho barbado falando Bambi? É ridículo, simplesmente.

Richarlyson, numa nobreza impressionante, escutou tudo calado. Por cinco anos, a torcida do São Paulo cantou a escalação do time excluindo seu nome. Ao chegar ao Palmeiras, deparou-se com uma faixa que dizia “A homofobia veste verde”. E debaixo de piada atrás de piada (as quais me recuso a citar), foi campeão da Libertadores em 2013, com o meu Galo jogando ao lado do irmão.

Pois Richarlyson pra mim é um herói. Nosso então treinador Cuca, quando escutava algum comentário cretino da imprensa a respeito, dizia que ele era “homem bravo em campo”. E que assim seja lembrado. Pelo milagre de 2013, terá meu aplauso e gratidão por onde passar. Pela classe com que enfrentou a hipocrisia da profissão, terá minha admiração sempre. E se sua trajetória inspirar ao menos uma criança a se aceitar e aceitar o próximo, a se orgulhar de si e enfrentar o mundo sem medo ou vergonha, terá se tornado imortal.

Adeus, cinco letras que choram.

 

Sobre Cristiano de Oliveira (8 artigos)
Cristiano é mineiro, atleticano de passar mal, formado em Ciência da Computação no Brasil e pós-graduado em Marketing Management no Canadá. Foi colunista do jornal Brasil News por 12 anos. É um grande cronista do samba e das letras.

1 comentário em Richarlyson imortal

  1. Excelente texto!

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