Se Schuster pudesse me ouvir

Mas não era esse o plano

O jornalista José Francisco Schuster, nos estúdios do Jornal de Toronto.

Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto

Não era nada disso. Nada! Não era esse o plano. Nem o seu e nem o meu, pois eu já estava com outro texto praticamente pronto, sobre outro assunto, que eu esperava que você fosse ler. Mas de alguma forma, a cada vez que eu me sentava pra escrever, eu sentia que aquele texto não ia sair. Não ia ficar pronto, e se ficasse não ia fazer sentido. Parecia que algo tava errado, mas… Precisava ser tão errado assim, amigo?

Não me lembro se nós nos conhecemos em 1999, quando eu terminava minha pós-graduação e me preparava pra voltar ao Brasil, ou em 2003, quando voltei pra Toronto de vez. Mas foi por ali. Em 2005, passei a integrar a equipe de legendagem de cinema e televisão da SDI Media, e não me lembro se foi por meu intermédio ou não, mas pouco tempo depois, você chegava naquele passinho curtinho e se juntava a nós. Fala mansa, sorriso aberto, a audição meio complicada e um espirro altíssimo, capaz de balançar as paredes do escritório. Queria poder te contar quantos colegas daquela época, gente que a gente não vê há séculos, lembraram de você e lhe prestaram homenagens nesses últimos dias. Mas cê era modesto demais pra querer saber essas coisas. Eu ia era gastar saliva pra te contar, porque você ia achar que era bobagem do povo.

“Não gosto de namoro, quero logo é casar”, você me dizia. Bati no seu ombro e disse, “vá pra Fortaleza então, uai. Veja se a moça quer vir pra cá com você”. Você foi e voltou pro trabalho casado, sorrindo de uma orelha à outra. Depois de um tempo desandou, outro casamento veio, outro se foi. Eu assisti aos inícios e fins, e te confesso que suas separações me doíam. A gente não ficava conversando de sentimentos, era aquela coisa de dois homens sistemáticos: a gente se entendia com poucas palavras, sem muita gracinha. Mas sabendo de como você gostava da vida de casado, sim, as suas separações me doíam. Não falei abertamente, não dei abraço, porque isso é coisa do tipo “eu devia ter feito” que o sistemático sabe que vai carregar como arrependimento pra sempre, mas ele ainda assim não faz porque não consegue. Nós não nos abrimos, não contamos nossos sentimentos, não dizemos palavras bonitas pra amigo, nem mãe, pai… Não sai. O sistemático desconhece essa arte. E nós sabemos perfeitamente que isso vai doer no dia em que o outro faltar. Dito e feito, amigo.

Por volta de 2006, eu comecei a fazer violão e voz no Cantina, hoje Enoteca Sociale, ali na Dundas quase com Dovercourt. Logo no primeiro show, você não só foi, como montou a câmera em uma mesa em frente, filmou o show todo e me deu gravado em um DVD. Tenho esse disquinho até hoje. Mais do que um registro em vídeo, o que eu vejo mesmo naquilo é um cara que fez o que estava ao seu alcance, com o que tinha, pra poder apoiar um músico. A partir dali, você apareceu em quase todo show, e não só meu mas de todo mundo: o seu apoio à cultura na comunidade brasileira era um projeto de vida. Sem retorno, sem patrocínio, sem apoio, mas sempre inabalável.

Toquei pra casas lotadas, e também toquei pra 4, 5 amigos, mas pra você não fazia diferença. Era sempre o primeiro a chegar, numa pontualidade monumental que o cenário da música ao vivo nunca conseguiu oferecer a ninguém. Mas esse tal cenário é que se virasse, pois no cartaz tava falando 9pm e no seu relógio já eram 9pm. Sentava-se resignado com o celular e esperava o show começar, mas sempre, sempre com um sorriso no rosto, que se abria ainda mais quando eu tocava Kleyton e Kledir. Ô gaúcho orgulhoso, que estava sempre agarrado aos encontros do CTG de Toronto. Sendo eu insuportavelmente mineiro, compreendo e admiro seu orgulho, e completo dizendo que me rendi a essa crença de vocês de que deu pra ti, baixo astral, quando a gente canta que vai pra Porto Alegre e tchau.

Cristiano de Oliveira, sendo entrevistado por Schuster na rádio Voces Latinas, em 2012. Foto: Joyce Aldrich.

“E aí, tchê?”. Luto agora pra me lembrar das suas expressões tão peculiares, mas essa saudação era sua marca registrada, e me lembro das mais diversas situações em que a ouvi. Nas várias vezes em que eu participava dos seus programas de rádio, o nervosismo de falar ao vivo se esvaía imediatamente ao chegar e ouvir essa saudação, ou outra clássica também: “Graaaande Cristiano!”. E sem falar em quando nos encontrávamos no CAIS – Centro de Apoio e Integração Social Brasil-Canada, substituto do Centro Brasil-Angola – onde voluntariamos juntos. Quando ele estava perto de fechar, toda sexta-feira eu e você nos encontrávamos lá, e dali saiu muita conversa boa. Inclusive foi lá que você me contou algo que eu preciso informar a seu filho: que sua maior alegria foi, num período em que esteve hospitalizado em Toronto, completamente sozinho, receber a visita dele e a ajuda dele pra fazer sua barba. E que seu filho saiba também que você não disse isso pra contar vantagem. Eu me lembro bem do assunto: você só queria me aconselhar a ter filhos também.

O que eu não consigo digerir é o fato de que, apesar de todo o seu esforço pela comunidade brasileira, foi justamente uma parte podre e desgraçada dela que trabalhou pelo seu mal e lhe fez perder o ganha-pão no Consulado – a todos que trabalharam pela sua demissão por conta de encrenquinha política, saibam que conseguiram estragar uma vida a troco de nada. Uma maldade que só rendeu a vocês a satisfação de destruir um homem, em cujas últimas palavras ainda mencionava a dificuldade de conseguir emprego. O demônio agradece a preferência e já espera vocês de braços abertos, criaturas peçonhentas. Gozado que hoje, uma turma pede anistia a pessoas que investiram tempo e dinheiro na destruição de Brasília e do sistema de governo, mas por aqui uma turma parecida (senão a mesma) pedia a cabeça de um cara que nunca levantou um dedo pra ninguém. Meu bom amigo, espero que você tenha conseguido perdoá-los antes de partir, porque eu até hoje não dei conta.

E desculpe-me, amigo, por não ter falado tudo o que devia ter te falado. Por não acreditar que gente como você um dia se vai, e sempre deixar as conversas importantes pra próxima. A gente no Canadá normaliza essa coisa de “uns vão e outros vêm”, e bota na cabeça que quem foi está melhor que a gente, no calor da terra natal. Que erro meu! Ao menos consegui lhe prestar uma homenagem em vida, compondo o samba “José Francisco” para a abertura do seu podcast no Jornal de Toronto, esse projeto que você abraçou com tanta dedicação. Os parceiros da Roda de Samba de Toronto, Carlos Cardozo e André Valério, se uniram a mim nos arranjos e na gravação, e colocamos a música no Soundcloud – nosso primeiro trabalho autoral, graças a Deus, saiu exatamente pra quem mais merecia.

Mas não era esse o plano. Não era pra ter sido assim. Não era pra ter escrito nada disso, o assunto deveria ser outro, e as notícias suas que chegassem deveriam ser de reencontros e renascimentos em terras brasileiras. Mas você é o jornalista sênior, o chefe da redação, e a mim só cabe obedecer, com muita tristeza, a essa mudança de pauta repentina que você nos impôs.

Eu espero que você tenha encontrado muita paz e o seu cachorro Bruce.

Hoje minha tradicional frase de despedida é imensamente literal:

Adeus, cinco letras – e uma comunidade imigrante inteira – que choram.

Cristiano de Oliveira, sendo entrevistado por Schuster no Jornal de Toronto, em 2020.

Leia também a matéria “Comunidade perde seu mais ilustre representante“, que o editor Alexandre Dias Ramos escreveu em homenagem a Schuster.

Sobre Cristiano de Oliveira (36 artigos)
Cristiano é mineiro, atleticano de passar mal, formado em Ciência da Computação no Brasil e pós-graduado em Marketing Management no Canadá. Foi colunista do jornal Brasil News por 12 anos. É um grande cronista do samba e das letras.

1 comentário em Se Schuster pudesse me ouvir

  1. Lindo texto. Merecida homenagem. Obrigada por compartilhar.

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