Jesus no bolso na era da inteligência artificial
Rodrigo Toniol é colunista do Jornal de Toronto
Na cidade de Lucerna, na Suíça, os visitantes da Capela de São Paulo encontraram um confessor diferente. No lugar de um padre, quem os recebia era uma tela com inteligência artificial, capaz de ouvir e aconselhar quem se sentasse diante dela. O caso suíço é pitoresco, mas não é isolado. Ferramentas de IA já circulam com naturalidade no universo religioso.
Entre cristãos, a oferta de aplicativos com IA já é ampla. O Text With Jesus se apresenta como um chatbot para conversar com Jesus e outras figuras bíblicas, prometendo diálogos “pessoais” guiados pelas Escrituras e informando, de modo explícito, o uso de IA generativa. O Bible Chat segue trilha parecida: combina plano de estudo e diário espiritual com um módulo de “Bible AI”, no qual o usuário faz perguntas e recebe respostas em conversa, como catequese, devocional e consulta rápida no mesmo ambiente.
No catolicismo, o Magisterium AI se define como um “answer engine” que responde com citações do magistério, da Bíblia e dos padres da Igreja. Há equivalentes em outros universos religiosos, como o Ask Buddha e o Gotama AI, que simulam conversas com o Buda e traduzem ensinamentos budistas para uma linguagem cotidiana.
Por mais que o uso desses aplicativos possa despertar críticas doutrinárias por parte de alguns religiosos, todos eles foram criados como forma de amplificar os ensinamentos de cada uma das religiões e difundir doutrinas. Ou seja, para seus criadores, os apps operam como se fossem uma catequese personalizada ou um devocional portátil.
O ponto não é que esses aplicativos dispensem a missa, o culto ou o templo. Eles podem até reforçar a rotina religiosa. A novidade é outra: a IA instala um mediador que opera fora das cenas clássicas do religioso que pastoreia o seu rebanho. Quem passa a responder às questões não é mais esse pastor, mas um mediador virtual, customizado, que adapta a linguagem ao usuário e responde com base em interações anteriores.
Ainda é cedo para prever os efeitos dessa mudança sobre a forma de viver a religião. O que se pode afirmar é que, historicamente, transformações nos meios de difusão da palavra religiosa produziram efeitos concretos. Cultos e sermões transmitidos por rádio e televisão, por exemplo, foram centrais para a explosão do número de evangélicos ao longo do século XX.
Mais decisivo do que o precedente do século XX é o caso da Reforma Protestante. A partir de 1517, sua expansão ocorreu, em grande medida, graças à invenção da prensa de Gutenberg, que permitiu reproduzir sermões, panfletos e traduções bíblicas em escala inédita. A tecnologia não criou a disputa teológica, mas alterou sua velocidade, seu alcance e seu público.
No fundo, o que está em jogo não é apenas aumentar a capacidade de difusão da palavra, como no rádio e na TV, nem apenas reorganizar a autoridade sobre a interpretação, como na Reforma. A IA junta as duas coisas: amplia a escala e personaliza a doutrina. É como se cada fiel passasse a carregar um confessor no bolso, disponível a qualquer hora. Sem capela, sem fila, sem Suíça: basta abrir o app. Claro que vale lembrar o óbvio, que esse modelo que pode transformar a forma de relação com o sagrado tem donos, acionistas e interesses corporativos.

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