Bruce

Sempre tive amor pelos animais – aliás, até carrego um Francisco no nome

O cachorrinho Bruce, na Toronto Islands.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Sempre tive amor pelos animais – aliás, até carrego um Francisco no nome –, mas pouco havia sentido reciprocidade dos cachorros em relação a mim. Lembro de tantas vezes caminhar pelas ruas do Brasil de cabeça baixa, apressado, quase no meio-fio das calçadas e os cachorros nos quintais latirem para mim como se o Bin Laden estivesse chegando. Acho que se me pegassem, iriam fazer picadinho de mim. Não era nada amistoso.

Até que um dia, já aqui no Canadá, arranjei uma paquera que tinha um cachorrinho. E foi amor à primeira vista. Dele por mim, explico melhor. Ele me adotou. Era sentar-se no sofá e adivinhem quem se sentava no meio, como mãe da noiva, pedindo carinho? Não havia como não se encantar. O nome dele era Bruce, fiquei sabendo. A cada visita, a mesma coisa. Agora já era um amor recíproco, que crescia cada vez mais. Sempre carinhoso, sempre de bom humor, não havia dia ruim. Um amor puro, belo, infinito, sem esperar nada em troca, como todos os amores deveriam ser.

Até que um dia, resolvemos morar juntos. Eu, a namorada e ele, mas não exatamente nesta ordem. Quem adonou-se do meio da cama? Não havia como argumentar, pedir, etc.: aquele lugar era dele e fim de papo. E no café da manhã, sempre ao meu lado. A cada mordida que eu dava no pão, ele colocava a cabeça no meu joelho para pedir um pouquinho. Só quando eu acabasse de comer que ele ia procurar a ração dele. Outra regra que ele colocou é que, sendo ele alguém de casa, não gostava que deixassem a porta do banheiro fechada. Assim, sempre na hora do meu banho e, vejam só, até na hora do número dois, havia um acompanhante fiel deitado no tapetinho do banheiro.

Flor de educação, na madrugada, quando estavam todos dormindo, se ele precisasse de algo, vinha e tocava de leve com a patinha no meu braço para eu acordar e o atender. Nunca despertou os outros, muito menos latiu. Me chamava discretamente e me mostrava o que precisava.

Aí chegou a pandemia e, junto, o desemprego. Tempo de começar a enlouquecer passando o dia inteiro em casa, só na frente do computador mandando currículos. Foi assim que caiu a ficha para o então aprendiz em pets aqui de como é chato ficar o dia inteiro trancado em casa, e como uma descidinha de cinco minutos só para fazer as necessidades é insuficiente para a saúde mental. Foi assim que combinamos fazer caminhadas de uma hora diárias. Sete dias por semana, com o clima que estivesse. A preguiça de sair de casa no longo inverno do Canadá foi colocada de lado, em algo que foi muito positivo para a saúde mental dos dois. Até cheguei a escrever uma coluna sobre como o Bruce me ensinou resiliência, contando a história de como passamos a fazer a rota normal, mesmo sob um frio horroroso.

Chegou uma hora em que decidimos morar os dois sozinhos, o que fez nossa química crescer ainda mais. Nos tornamos companheiros fiéis, amorosos, de todas as horas. Passei a não gostar de me demorar em festas porque, como mãe, ele não dormia antes de eu chegar em casa. Aliás, passou a dormir ainda mais perto de mim e, às vezes, até grudadinhos. Tem como não se apaixonar? Inteligente, descobriu que a praça a que agora íamos, onde ele encontrava os amigos na área sem coleira, podia ser atingida através de diversos caminhos – parte de Toronto é quadradinha como tabuleiro de xadrez – e ele variava a rota para não ser uma mesmice, e assim descobrir novidades. Nesses caminhos, encontrou o amor da sua vida, a Lola. Eu e a humana da cachorrinha ficávamos até encabulados com tanta afeição que não acabava, mas simplesmente nos faltava coragem de separá-los para ir em frente. Se amavam de verdade.

E tem como não se sentir super-amado quando se chega em casa do trabalho e é uma grande festa? O Bruce estava até ansioso por seu passeio, mas não sem antes haver vários minutos de carinho mútuo. Esperto, também percebia quando era dia de semana e quando era final de semana. Sábados e domingos ele sabia que poderia fazer uma rota maior, enquanto que nos dias úteis ele já regressava de um certo ponto.

Bruce me ensinou muito: o compartilhar o dia a dia sem nunca ficar de mal; amar, amar e amar. Um anjo da guarda em minha vida. Até que em 23 de fevereiro de 2024 ele partiu, sem muito aviso – ainda pela manhã, tínhamos dado uma voltinha antes de eu ir para o trabalho. Tenho certeza de que ele está me cuidando lá de cima. E eu continuarei o amando aqui de baixo. Até seguirei fazendo nossa rota diária ao voltar do trabalho, mesmo que agora ele só participe virtualmente. Obrigado pelo teu amor infinito, Bruce, uma imensa bênção em minha vida. Saiba que também te amo infinitamente e, um dia, se Deus quiser, nos reencontraremos e nunca mais nos separaremos. Um beijo, descansa em paz.

 

Sobre José Francisco Schuster (92 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

1 comentário em Bruce

  1. Meus sentimentos Schuster. Sinto muito pela perda.

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