O preço de uma mentirinha: arruinar seu processo de imigração no Canadá
Gabriel Melo Viana é colunista do Jornal de Toronto
Abrir o Instagram ou qualquer outra rede social hoje em dia é quase garantia de encontrar alguém vendendo solução milagrosa para imigração. Prometem caminhos fáceis, atalhos, estratégias “secretas”, como se o sistema fosse algo simples de driblar. Criam sonhos que muitas vezes não existem e passam a ideia de que é esperto buscar jeitinho quando se trata de regularizar seu status no Canadá.
Ao mesmo tempo, não é incomum ouvir relatos de pessoas que foram vítimas de fraude enquanto tentavam organizar sua situação imigratória. Isso acontece com mais frequência do que deveria. E nem sempre a fraude vem com cara de golpe óbvio.
Existem pessoas que se passam por profissionais licenciados: usam termos técnicos, colocam “consultor” na bio, dizem ter anos de experiência, cobram valores altos e prometem resultados garantidos. Em alguns casos, simplesmente não submetem a aplicação, mesmo após o pagamento. Em outros casos, mentem nas respostas, alteram informações, inserem documentos forjados, na maioria das vezes sem a anuência do cliente. E quem sofre as consequências não é quem preencheu ou deu a orientação errada. É o cliente.
Mas o problema não se resume a esses que fingem ser profissionais, que estão por todo lado. Há também muita, mas muita mesmo, gente que simplesmente fala do que não sabe, ou do que acha que sabe. Pessoas que tiveram um processo aprovado e passam a se sentir especialistas. Gente dando orientação complexa em grupo de WhatsApp ou de Facebook, interpretando lei de imigração como se fosse opinião pessoal, gente dando dica de imigração nas redes como se estivesse ensinando a preparar uma sobremesa. Imigração não é “achismo”. Cada caso tem detalhes, histórico e riscos específicos.
O que muita gente não entende é que, pela lei de imigração canadense, a responsabilidade pelas informações enviadas é sempre do aplicante. Não importa se foi um “consultor”, um amigo, alguém do Instagram, um “coach” ou alguém da família que lhe orientou ou que preencheu a papelada. Se houver informação falsa, omissão relevante ou documento fraudulento, quem responde é quem assinou e enviou. A justificativa de que “eu confiei em alguém” normalmente não afasta uma acusação de misrepresentation.
E as consequências podem ser extremamente graves: perda de status, recusa, inadmissibilidade por anos, deportação e até implicações criminais, em certos casos. Uma mentira pequena pode se transformar em algo catastrófico quando descoberta. E, na Imigração, inconsistências quase sempre aparecem em algum momento.
Fraude não é só o golpe clássico, é também a cultura do atalho, da meia-verdade, da história adaptada para “encaixar melhor”. Isso pode destruir planos de vida.
Por isso é tão importante entender quem está orientando você. Um advogado, um paralegal licenciado ou um consultor regulamentado estão sujeitos a regras claras, códigos de conduta e fiscalização; existe responsabilidade profissional e existe órgão regulador. Isso não significa perfeição, mas significa que há limites, deveres éticos e consequências disciplinares.
Em imigração, improviso e desinformação custam caro. Confiar seu futuro a alguém que vende ilusão ou que fala com base em “achismo” pode sair muito mais caro do que qualquer honorário profissional legítimo. O sistema não é feito para ser burlado. Aquela “mentirinha marota”, aquele atalho ou jeitinho para tentar enganar o sistema, pode destruir anos de esforços e sonhos.

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