Comunidade perde seu mais ilustre representante
Alexandre Dias Ramos é editor
Se tem alguém que merece ser homenageado nessa comunidade é o jornalista José Francisco Schuster, que infelizmente nos deixou na madrugada do último 10 de maio, aos 64 anos. Saber de seu passamento traz, a uma grande quantidade de gente, uma tristeza imensa. Schuster foi, ao mesmo tempo, o mais comum e o mais ilustre representante de nossa comunidade. Como amigo e colega, nem sei direito como escrever esse texto, mas sei que certamente uma pequena matéria como essa não fará jus ao que esse grande homem fez pela comunidade brasileira em Toronto.
Fosse “apenas” pelos seus 17 anos trabalhados no Consulado-Geral do Brasil em Toronto (2002 a 2019), isso já teria sido um enorme serviço à comunidade; se fosse “apenas” pela criação (em 2010) do grupo de Facebook “Brasileiros no Canadá”, o maior e mais importante grupo de ajuda para nossos conterrâneos no país, já teria sido extraordinário – o grupo conta hoje com mais de 76 mil membros! Mas nosso José Francisco, com seu jeito tranquilo e amável, fez muito mais do que isso.
Sua paixão pelos brasileiros fizeram dele uma referência incontornável. Aliás, sua presença em TODOS os eventos sociais o tornaram uma figura quase lendária: conseguia estar em dois ou três eventos “ao mesmo tempo”! Não media esforços para compartilhar tudo o que podia com a comunidade e, muito importante, para unir os falantes da língua portuguesa. E assim o fez como jornalista.

Schuster nos estúdios da CHIN Radio, entrevistando a antropóloga Marília Senlle e o líder indígena Davi Kopenawa Yanomami, em 2018.
Com 43 anos de experiência na área, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Em Toronto, começou em 2005 no jornal português Nove Ilhas, até 2010, quando passou a colaborar para a Discover Magazine, até 2019. Foi, durante 8 anos, âncora do programa “Fala Brasil”, inicialmente pela rádio Voces Latinas e posteriormente pela Camoes Radio. Em 2018, a CHIN Radio o convidou para produzir e apresentar o programa “Noites da CHIN – Brasil”, onde foram realizadas 186 entrevistas – aliás, todas elas disponíveis no website do Jornal de Toronto.
Quando seu programa na CHIN Radio terminou, em novembro de 2019, ficamos sem o homem que divulgava a programação de toda a comunidade. Não por muito tempo, o novo prédio do Jornal de Toronto, na Dufferin St., estava para ser inaugurado, e prometi a Schuster produzir um novo programa especialmente para ele: e foi assim que estreamos nossos estúdios com o lançamento do podcast “Fala Toronto”, onde brasileiros, angolanos, portugueses e moçambicanos foram recebidos pelo nosso jornalista ao longo de 2020 e 2021 – o programa extrapolou Toronto e foi ouvido em 543 cidades em mais de 38 países!
Costumo dizer que praticamente toda a comunidade brasileira já foi, em algum momento, entrevistada por ele em Toronto! Exagero? Pior que não!
Como colunista, Schuster fez parte desde o início do Jornal de Toronto, ainda em março de 2017, nas primeiras reuniões preparatórias para o jornal, que lançou sua primeira edição em 10 de julho daquele ano. E foram 8 anos de trabalho intenso, deste que foi nosso maior escudeiro. Schuster uma vez me disse que participar do Jornal de Toronto era o que o fazia ter orgulho de ser jornalista. Em grande medida, ele presentificou a própria razão do Jornal existir: dar voz e unir a comunidade através do jornalismo. Ninguém vestiu a camisa do JdeT como ele. “As pessoas pensam que o Schuster é que é o dono do Jornal”, me diziam uns, preocupados; e eu sempre respondia “Deixa pensarem, ele também merece”. Foram 92 matérias escritas para o Jornal de Toronto, tendo sido, desde o início, nosso colunista mais lido. Seu jeito de escrever atingia diretamente a todos, refletindo sempre o sentimento contraditório, e tão forte, do imigrante de estar aqui mas com a saudade de sua terra natal. Aliás, Schuster havia voltado a Pelotas, onde nasceu, em fevereiro desse ano, e acabou por falecer em seu amado Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
Em nome de toda a equipe do Jornal de Toronto, desejo que o legado do nosso querido José Francisco Schuster seja lembrado e multiplicado. Descanse em paz, meu amigo.

Schuster, sua paixão pelo jornalismo e seu apoio incontestável ao Jornal de Toronto.
Leia também a matéria “Se Schuster pudesse me ouvir“, que o colunista Cristiano de Oliveira escreveu em homenagem ao colega e amigo.

Grande escrito, seu Alexandre.
Eu, quando morrer, quero que falem mal de mim (pois não tenho cacife pra ser bonzim). Ahahahah
Grande Schuster nos deixou, mas que legado ele nos proporcionou!
Saravá, companheiro!
Tive a honra de ser entrevistada por Schuster e recebi a notícia com grande tristeza. Ele deixou um legado maravilhoso e é fundamental recordar sua imensa importância para a nossa comunidade. Uma homenagem mais que merecida. Obrigada.