Saudade não tem idade
Sergio Del Carlo Taioli é psicólogo e coapresentador do podcast “Conversa Fora”
A saudade costuma ser tratada como simples falta, mas ela é, na verdade, permanência do vínculo; quando a presença não é mais possível. É justamente nesse espaço a morada da saudade: entre o que foi vivido e o que ainda habita dentro de nós.
Quando alguém fala de saudade, raramente está falando apenas de quem ou do que perdeu, está falando também de si, de sua história afetiva e de sua capacidade, ou dificuldade, de elaborar separações. Assim, a saudade atravessa idades e histórias, como uma experiência fundamental para a própria condição humana.
A literatura brasileira sempre soube que a saudade não é apenas memória, mas identidade em movimento. Por exemplo, Machado de Assis traz, em Dom Casmurro, a saudade como ciúmes e idealização. Bentinho, movido por uma mistura de amor e ressentimento por Capitu, cria uma saudade carregada de desconfiança, desejo, controle e orgulho ferido, que nitidamente se traduz numa releitura obsessiva da perda.
Saindo da literatura para algo mais pessoal, a saudade também revela o lúdico, a condensação onírica, o relacionamento dos nossos sentimentos mais banais, como por exemplo uma música que volta sozinha à cabeça, uma peça de roupa muito antiga vestida por um desconhecido no metrô, muitas vezes relembrando momentos e experiências vividas, ouvidas ou assistidas.
Na década de 1970, mais precisamente entre 1978 e 1979, houve um programa de televisão intitulado “Saudade não tem idade”. Era um espetáculo musical muito assistido naquela época. O programa era apresentado por Ney Latorraca e reunia músicas com performances relacionadas com o gênero ou o estilo musical escolhido para aquele episódio. A frase “saudade não tem idade” ficou, até hoje, no imaginário das pessoas de qualquer idade, mesmo daquelas que nunca tiveram nenhum contato com o programa; contudo, permaneceu viva como a afirmação e legitimação de um sentimento. Ou seja, a frase se tornou uma autorização emocional, uma forma simples e afetiva de dizer que todo veículo deixa marcas, em qualquer fase da vida.
A saudade, portanto, não é um afeto menor nem um simples resíduo do que passou. Ela é um modo de permanência, uma forma singular de continuidade psíquica quando o encontro já não é possível no plano da realidade. Ao lembrar, reinterpretar e sentir, o sujeito reafirma seus vínculos e, ao mesmo tempo, se reinscreve na própria história. Por isso, a saudade não envelhece. Aqui cabe ainda um exemplo muito comum entre nós: quando uma pessoa querida e amada morre jovem, ela nunca envelhece em nossas memórias; se mantém viva dentro de nós com a última idade que teve. Mas os desdobramentos dessa imagem não se esgotam nem se fixam apenas no passado: ela se atualiza, se desloca e se transforma, acompanhando o movimento dos nossos cotidianos. Reconhecê-la como experiência humana fundamental é também reconhecer que somos feitos não apenas do que vivemos, mas daquilo que continua a nos habitar.
Por fim, entre o romance de Machado e o palco da televisão, como também na morte que narrei, a saudade revela sua dupla face: pode ser cárcere da memória para sempre ou ponte entre tempos, histórias e idades. E talvez seja nesse intervalo, entre o apego que paralisa e a lembrança que acolhe, que se joga a possibilidade de transformar a saudade não em prisão, mas em algo fluido, vívido, capaz de transformar-se em pertencimento com sua própria narrativa. Narrativa essa que nos traz ao mesmo tempo lucidez e fantasia e, por que não, a loucura.
Ouça também nosso podcast especial sobre saudade, ausência e pertencimento:

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