Por uma tradição medieval… contemporânea!
Alexandre Dias Ramos é editor
Talvez não exista nada que os portugueses gostem mais do que a palavra (e o sentimento) “tradição”. E vemos isso no ritmo do fado, e seu saudosismo por alguém ou algo que não volta mais, nas receitas maravilhosas de meados do século XVIII, na belíssima arquitetura, mas também numa glorificação dos chamados “descobrimentos”, algo que nos exigiria aqui muita reflexão e muito pouco do que se orgulhar – mas quero falar nesse texto apenas de fantasmas bons.
Enfim, tradição é algo caro aos portugueses e a banda de neo-folk Lusitanian Ghosts, sediada em Lisboa, ficou muito conhecida por substituir as guitarras elétricas por violas medievais. Mas não se engane, o coletivo está longe de poder ser chamado de tradicional.
O documentário “Lusitanian Ghosts”, dirigido por André Miranda, acompanha o processo de produção do primeiro álbum da banda e, ao mesmo tempo, mostra o trabalho de resgate dos “cordofones”, violas populares antigas que foram (quase) completamente esquecidas, e por pouco não enfrentaram a completa extinção. “Eles é que são, de fato, os verdadeiros fantasmas lusitanos”, diz o cantor e compositor luso-canadense Neil Leyton, um dos fundadores da banda.
O músico e escritor Chico Gouveia, em entrevista no filme, declara que “Uma nação pode existir sem chefes, sem presidentes, sem reis; pode até não ter uma bandeira ou um hino; uma nação pode existir até sem território, mas uma nação não existe se não tiver sua cultura popular. Ela é o cimento que agrega as pessoas”.
Cada região de Portugal tinha seus próprios instrumentos populares – como temos, por exemplo, a rabeca, no Nordeste do Brasil – e seus modos característicos de tocá-los. Eram instrumentos feitos com materiais simples, madeiras pouco nobres que, com o tempo e o uso, acabavam se estragando. Sobraram pouquíssimos exemplares e quase nada se sabe sobre a afinação de suas cordas e o modo com que deveriam ser tocadas. É uma herança cultural praticamente perdida.
Com muita determinação e pesquisa, a banda descobriu uma das afinações medievais, e conseguiu reconstruir e restaurar alguns dos instrumentos: as violas terceirense, amarantina, beiroa, campaniça e braguesa voltaram à vida!
Muito bonito de assistir, no filme, o renascimento desses instrumentos. “Os cordofones têm seus próprios espíritos, séculos de história, a gente pode sentir esse peso, muito diferente de um instrumento novo”, diz Neil. Ao mesmo tempo, o vocalista fala da importância de respeitar o passado, mas não ficar preso nele; tomar cuidado para não tornar estanque um determinado ritmo, congelado no tempo, e acabar tratando-o como um fóssil. Neil acredita que “a cultura não pertence a museus, a cultura pertence às mãos dos criadores, que vão levar a cultura adiante”.
Nesse sentido, o fato de ninguém mais saber como essas violas eram tocadas abriu caminho para um rico processo de liberdade e experimentação musical. Os Lusitanian Ghosts acreditam que tocar é se colocar permanentemente no limite de sua habilidade técnica, e com isso abraçar os erros, incorporá-los, aprender com eles e curtir o imprevisível. E foi isso que eles fizeram. Há uma sequência fantástica no filme com uma máquina de lavar louça (o trecho pode ser assistido no vídeo que coloquei abaixo).
E assim, no meio de uma loucura fascinante, é que a banda consegue fazer instrumentos medievais viverem de novo. “Old instruments, new ways.”
Dizem que uma resenha de cinema deveria ter sempre uma boa crítica – e aqui quero dizer “negativa”, que é o que muitos leitores esperam ansiosamente. Pois bem, vai lá uma então: o nome do filme é o nome da própria banda, e isso não apenas causa confusão, em relação à divulgação de ambos, como também se perde a oportunidade de valorizar certos conteúdos do documentário. O filme, a meu ver, tem qualidades que ultrapassam o próprio processo de gravação do disco, e por isso acho que merecia um título só para si. Apagamento histórico, resgate, experimentação, liberdade… há muito nas falas e nas interessantes entrevistas que poderiam ser potencializados num título. Mas talvez o simples acréscimo de um subtítulo já possa consertar isso.
Abaixo, um vídeo com cenas da produção do primeiro álbum da banda. Há trechos que também foram para o documentário e, portanto, já dá “uma palhinha” de como vai ser o embalo do filme. Enjoy!

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