O Brasil renasce

A democracia, como Fênix, renasceu das cinzas

Cerimônia de posse do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto junto com representantes do povo, que passaram a faixa presidencial para ele. Foto: Tânia Rego _ Agência Brasil.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Este 1º de janeiro de 2023 foi um dia que fez os brasileiros democratas chorarem. Quem se debruçou um pouco mais sobre o que estava acontecendo com o Brasil nos últimos quatro anos, como eu, chorou litros. Mas de alegria, de emoção. O fantasma do fascismo, da exclusão, da negação da Ciência, do ódio, das fake news, de um mundo de faroeste e de milícias, passou. A democracia, como Fênix, renasceu das cinzas. Tornou-se ainda mais emocionante porque foi por um triz, por uma apertada margem que foi conquistada a vitória.

E veio na sua mais esplêndida forma, por um tarimbado líder, já testado e aprovado em duas gestões que levaram o Brasil a um novo patamar. Merecidamente, é o primeiro presidente brasileiro a chegar ao tri, por uma simples razão: pela primeira vez, em mais de 500 anos do país, ele pensou nos excluídos, e fez o possível para tirá-los desta condição. Engraçado que até então a pobreza era tida como algo que fazia parte do país, e contra a qual nada se podia fazer; uma sina que tinha que se carregar e pronto, sem que governo algum fizesse nada de sério para combatê-la. Lula, enfim, lembrou desta ampla parcela da população e colocou muitos inclusive nas universidades, algo impensável até então.

Como não ficar emocionado, portanto, com a perspectiva de a chaga da fome – que, para pasmo, era simplesmente negada pelo ex-ocupante do Planalto – voltar a ser combatida novamente? E por alguém que realmente leva o assunto a sério, chorando a falar dele em seu discurso? Não surpreende, em vista disso, que brasileiros de todo o país acorreram a Brasília para a posse, mesmo com longas e sacrificadas viagens. Certamente, foi a posse presidencial que a maior emoção despertou. Apesar de todo o ódio que ainda ronda, Lula quis demonstrar que conta com o apoio da maioria e que a democracia não tem medo de se estabelecer, circulando não de carro blindado, como chegou a se especular, mas em carro aberto.

Pensei que não passaria por momento mais emocionante na vida do que quando a democracia voltou, após o fim da ditadura. O “nunca mais” era um mantra que parecia estabelecido claramente. Porém, tristemente descobrimos em 2018 que alguns não aprenderam nada, e insistem em querer manter o Brasil um país de uns poucos privilegiados e muitos miseráveis, ou seja, uma sociedade de castas, onde uns raros têm muito e a maioria, só a miséria. É assim que se cria um pensamento de que alguns são melhores do que outros, o racismo, o trabalho sem carteira assinada de milhões e empregadas domésticas que trabalham por trocados e sem direito trabalhista algum.

A cereja do bolo foi o governo que felizmente acabou (tendo, como em cena de filme, saído fugido como um ladrão), ter negado e desmontado, entre tantas outras coisas, a Educação e a Ciência. Em um governo que em pleno século 21 defendeu a terra plana, teoria negada há séculos, universidades foram sucateadas e seus pesquisadores ficaram à míngua. Os que conseguiram chegar ao topo da educação sentiram-se desprestigiados e sem futuro. Foram quatro anos que acabaram se transformando, portanto, em uma época de fuga de cérebros do Brasil, cuja recuperação será lenta e difícil, pois voltar depois de todo o trabalho de se estabelecer em um novo país é complicado e doloroso como a partida. Foram anos em que, tristemente, a saída do Brasil era o aeroporto.

Como não se emocionar, então, com a posse de um governo que traz o Brasil de volta aos eixos, à razão, onde maluquices como apostar na cloroquina para o tratamento da Covid, em vez da vacinação em massa, ficam para trás? Felizmente, é possível novamente apostar no Brasil – e a presença recorde de mandatários estrangeiros na posse prova isso. Apostar, mais do que como “país do futuro”, como o país do presente, onde o novo governo sinaliza tomar medidas em curto prazo, como frear o desmatamento e o armamentismo recordes e voltar a valorizar o salário mínimo. Um país onde os ministérios são ocupados por profissionais competentes e comprometidos com a população, em vez das figuras folclóricas que por lá estiveram. E ver os indígenas representados pela primeira vez no governo.

O governo Lula já começou muito bem, com um ato simbólico muito significativo: melhor do que a faixa ter sido passada por um admirador do fascismo, foi passada pelo povo, por uma diversidade de seus representantes. Este é o novo Brasil, um país não só de alguns, mas de todos. Depois do choro emocionado da posse, é hora de sorrir. O Brasil renasceu.

Sobre José Francisco Schuster (66 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

1 comentário em O Brasil renasce

  1. Você como sempre muito feliz em suas palavras !!

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