Um encontro com Jaider Esbell em Toronto

Homenagem a um dos maiores representantes da arte indígena brasileira

Jaider in Curve Lake, Ontario. Photo: Jananda Lima.

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Jananda Lima é designer de inovação social

O despertador tocou às 3:30 da madrugada. Seria um longo dia, ou melhor, estava sendo uma longa semana. Eu tinha que estar no aeroporto às 5am, então me forcei a abrir os olhos e a me levantar da cama. Meu maior incentivo era o fato de eu estar prestes a conhecer pessoalmente o gigante Jaider Esbell. Ele era um dos convidados para o simpósio Ártico/Amazônia, um encontro histórico entre artistas indígenas dessas duas regiões, realizado aqui em Toronto. Nós já vínhamos conversando por vídeos e áudios do WhatsApp nos meses que antecediam esse encontro e eu havia me apaixonado por sua arte, seu discurso e sua escrita. Ele prometeu me trazer seu livro Tardes de Agosto Manhãs de Setembro Noites de Outubro e eu não via a hora de devorá-lo.

Jaider foi o último a chegar na cidade, então fomos direto para o Harbourfront Centre, onde aconteceria o simpósio. Chegamos cedo, ainda estava escuro, então caminhamos até o lago Ontário e enquanto admirávamos o nascer do sol refletindo nas nuvens e na água ele me falou sobre si. Falou sobre suas angústias, sobre o mundo ser um lugar inóspito, sobre sua falta de otimismo no amor. Me pareceu que ele precisava desabafar e o lusco-fusco junto a uma desconhecida seria um bom momento. Falou também como sua galeria era uma brincadeira para “tirar onda e fazer a energia circular no sistemão da arte dos brancos”, mas que ele era mesmo um desempregado. Disse com orgulho que havia pedido demissão como funcionário federal para ser um “artevista” (artista/ativista) índio livre autônomo. Falou também da Arte Indígena Contemporânea, falou do transmundo.

Artistas indígenas reunidos durante o simpósio “Ártico/Amazônia”, em Toronto. Foto: Jananda Lima.

Durante o evento, nas diversas oportunidades de diálogo com seus parentes distantes vindos do frio, ele provou tudo o que havia me dito, mas provou também o contrário. Provou o amor. Provou a espiritualidade. E tudo fez sentido. Jaider sempre foi um grande provocador. Ele nos tira do eixo. A todos nós. Indígenas e não-indígenas.

Enquanto estava aqui insistiu que eu o levasse para dar um mergulho nú nas águas do lago Ontário. O levei até o conjunto de ilhas de Toronto, que dias antes havíamos sabido ser território indígena para cerimoniais e local de cura, tomado pelos colonizadores. Um dos desafios de se promover o encontro do norte e do sul é definir uma época do ano que não seja nem muito quente para a delegação do Ártico e nem muito fria para a delegação da Amazônia. Para azar dos Inuits, aquele outono foi bem ameno, mas não o suficiente para um banho nú nas águas gélidas do lago Ontário. Ao chegarmos à sua beira, Jaider molhou suas mãos e lavou seu rosto. Ele olhou para o horizonte, sentiu o vento bagunçar seus cabelos, ensaiou uma dança, abriu um sorriso, e seguimos para outras descobertas.

Jaider no encontro com as águas do lago Ontário. Foto: Jananda Lima.

Ao final desses dias de outono em Toronto Jaider havia deixado sua marca por aqui. Já tinha deixado tudo diferente, todos diferentes. Era impossível ficar apático diante da sua presença, da sua força.

Em sua última noite na cidade, ele estendeu no chão todas as suas telas e disse: “escolhe”. Mas no final ele mesmo escolheu. Disse que aquele evento se tratava deles (artistas da Amazônia) fazendo amor com os parentes do Ártico, fazendo bebês, criando vida, e por isso me presenteou com a tela Grávida, como a testemunha daquele amor.

Antes de partir de volta ao Brasil ele pediu que eu o ajudasse a subverter o mundo da arte dos brancos, incluindo ele em eventos pagos e ajudando a vender a arte dele. Com esse dinheiro ele queria que jovens artistas indígenas tivessem as mesmas oportunidades que ele estava tendo, de viajar, causar pelo mundo e de alcançar voos bem mais altos que ele próprio. Ele sempre se colocou esse papel de precursor, de abridor de caminhos por meio da sua armadilha mais eficaz, a Arte Indígena Contemporânea.

Um dia recebi a mensagem: “Jaider Esbell nos deixou”.

Ainda sem conseguir acreditar, corri para ver o seu perfil. A última mensagem que me mandou foi: “Oi. Me liga pra escutar teu vozeirão, please”. Não me lembro sobre o que falamos, mas foi, provavelmente, sobre alguma de suas provocações.

Além da dor da perda de uma pessoa querida, chorei ao pensar em quem iria fazer o papel crucial que ele encarava. Quem será o provocador geral? Quem será o pensador brilhante como ele foi? Quem tem coragem de ser o que ele era diante de um mundo como esse? O que me conforta é pensar que sua arte continua viva, suas palavras ainda ressoam, e vamos cuidar para que continuem ressoando para sempre. Irão ressoar a cada novo artista indígena contemporâneo que vier por essa trilha, e também pelos que já atravessaram o rio.

Jaider Esbell vive.

 

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