O homem nu

Cem dias de quarentena e cheguei ao meu limite. Surtei. Aconteceu no sábado passado.

Foto: Jacqueline Macou.

Antônio Francisco Pereira é escritor em MG

Cem dias de quarentena e cheguei ao meu limite. Surtei. Aconteceu no sábado passado. Da cozinha para a sala. Da sala para o quarto. Do quarto para o banheiro. Todo o dia a mesma coisa. Foi aí que eu perdi a paciência. Tirei a camisa, a calça, a cueca e deixei tudo espalhado pela casa. Pus a máscara, peguei as luvas e fui comprar pão. A padaria é na esquina da minha rua, coisa de três minutos de caminhada.

Quando cheguei lá, espanto geral. Um idoso pelado não é um espetáculo muito convidativo. Está tudo fora do lugar. Bunda murcha. Pelanca desabando pra todo lado. E o herói de outras épocas escondidinho lá embaixo, entre duas bolas frouxas e rebaixadas pela força da gravidade. Patético, sem dúvida.

Depois que conferiu isso tudo, com um rápido olhar de repulsa, a moça barrou minha entrada:

– Desse jeito o senhor não pode entrar!

– Mas eu estou de máscara e luvas, retruquei. Não vou contaminar ninguém. Além disso passei álcool nas mãos. Tenho o direito de ir e vir. Dizendo isso estiquei os braços com tal ímpeto, para me apoiar na porta, que acabei soltando um retumbante “pum” de cinquenta megatons, que ecoou até dentro da padaria, espantando os demais clientes.

– Vou chamar a polícia. O senhor vai ser preso por atentando ao pudor, gritou a moça.

E foi assim que – pelado, peludo e sem pão – voltei pra casa, onde minha mulher, como castigo, me pôs para recolher e lavar a roupa, varrer a casa e limpar os banheiros. Depois, fechou a cara e não conversou mais comigo.

Mais tarde, sozinho com as paredes, tomei a sopa que ela fez. Sem pão.

À noite, enquanto o sono não vinha, retomei a leitura do meu livro preferido: O Homem Nu, de Fernando Sabino. Para acordar no outro dia com a seguinte dúvida: aquilo tudo aconteceu mesmo, ou foi autossugestão de uma boa leitura aliada aos efeitos do confinamento?

Pelo sim e pelo não – García Márquez me perdoe –, não vou reler O Amor nos Tempos do Cólera. Se 100 dias já foram demais, não quero esperar 51 anos para reconquistar minha amada.

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2 comentários em O homem nu

  1. Muito bom. O poeta Antonio Pereira tem muito estilo e talento para escrever

  2. Ah! Muito bom.

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