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O último desejo


Cá embaixo também fico eu, plantando e colhendo, saboreando e agradecendo a sinfonia da vida, pois sei que cada dia é a véspera do desconhecido. Quantas jabuticabas ainda tenho na bacia, eu não sei. Mas não posso queixar-me: todas são muito saborosas.

Ilustração do livro "O Pequeno Príncipe" (1943), de Antoine de Saint-Exupéry.

Antônio Francisco Pereira é escritor em Minas Gerais

Um cigarro e uma taça de vinho. Em muitos lugares, como na França, essa combinação é quase obrigatória. Faz parte do ritual quando se senta à mesa, sozinho ou acompanhado, em casa ou num ambiente público. Por isso mesmo um flagrante dessa natureza, de tão prosaico, não chamaria a atenção de ninguém. Mas outro dia, quando Carsten Flemming Hansen, de 75 anos, pediu um cigarro e uma taça de vinho – no que foi atendido – a notícia correu o mundo. Onde está a novidade?

Aconteceu na Dinamarca e a novidade está em que Carsten era um paciente terminal no Hospital de Aarhus, acometido de um aneurisma na aorta e hemorragia interna. Segundo avaliação médica, a luz do sol não o aqueceria no dia seguinte. Que fez ele então, no seu último momento de lucidez? Pediu às enfermeiras que o conduzissem na cadeira de rodas até a varanda do hospital e lhe servissem… um cigarro e uma taça de vinho branco. Enquanto os consumia assistiu ao último pôr do sol de sua vida. Morreu feliz, disseram as enfermeiras e os próprios familiares.

Um leitor brasileiro mais apressado, que dispensa os detalhes, diria que Carsten morreu como um passarinho e, logo, procuraria outras notícias no jornal. Eu, não. Acho que foi mais do que isso. Foi além disso. O ancião encarou aquele inevitável desfecho com tamanha dignidade, com tal leveza, que, para mim, ele nem chegou a morrer. Só fechou os olhos e disse para a Visitante: estou pronto, pode me levar. Foi uma partida quase poética. Enquanto o sol se punha no horizonte ele voava noutra dimensão – aí sim – como um passarinho.

Ilustração do livro “O Pequeno Príncipe” (1943), de Antoine de Saint-Exupéry.

Que ele faça um bom voo, planando livre, leve e solto entre as nuvens de algodão que – imagino – paramentam o caminho do céu. Cá embaixo, os parentes encontrarão consolo nas orações ou nas palavras de Antoine de Saint-Exupéry: “Aqueles que passam por nós, não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

Cá embaixo também fico eu, plantando e colhendo, saboreando e agradecendo a sinfonia da vida, pois sei que cada dia é a véspera do desconhecido, ou, na visão mais fatalista do poeta Cassiano Ricardo, “desde o instante em que se nasce já se começa a morrer”.

Quantas jabuticabas ainda tenho na bacia, eu não sei. Mas não posso queixar-me: todas são muito saborosas. A de hoje mais do que a de ontem. Quando uma delas está azeda eu jogo fora antes que contamine meu paladar.

Ao fim, quando não restar mais nem uma, eu gostaria de ter a mesma chance que teve Carsten Flemming Hansen. Mas, no lugar do cigarro, eu pediria música. As Quatro Estações, de Vivaldi, cairiam bem. Afinal, eu terei vivido todas elas intensamente.

Digo, por último, que não é justo envolver minha companheira nessa história sem seu consentimento. Mas, vislumbrando outro cenário, confesso que eu não ficaria triste se, encerrado o tempo regulamentar, o Criador ainda nos desse um bônus de sobrevivência. Como fez com o casal nonagenário de americanos Teresa e Isaac, que fecharam os olhos no Hospital de Highland Park, em Illinois, com apenas 40 minutos de diferença um do outro, de mãos dadas, depois de 69 anos de convivência.

Foi um concerto a quatro mãos, tocado em perfeita harmonia no instante derradeiro, mesmo sem a presença do piano.

Que ambos descansem em paz!

De minha parte, eu vou à estante buscar em Carlos Drummond de Andrade mais uma dose de poesia, porque esse assunto, essa lua e esse conhaque botam a gente comovido como o diabo.

De Antônio Francisco Pereira, leia também Mundo digital

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