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O drama dos deportados


Você está de boa quando o telefone toca de repente: “Pegaram o Fulano”.

Foto: Steve Buissinne.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Você está de boa quando o telefone toca de repente: “Pegaram o Fulano. Está na prisão da Imigração”. Você gela – ainda mais – de cima a baixo. Mais um que acreditou que o Canadá é igual aos Estados Unidos pré-Trump, onde a Imigração fechava um olho para os indocumentados. Contudo, como o Canadá tem muito mais possibilidades de legalização de um imigrante do que no vizinho – e uma população sete vezes menor para a Imigração controlar –, é muito diferente. O Canadá deportou 117 mil pessoas entre 2006 e 2014, ou seja, 35 por dia, inclusive para países em conflito.

Achar um indocumentado, mesmo que mantenha uma vida reclusa, não é difícil. Basta, por exemplo, uma infração de trânsito qualquer (não importa que não seja o motorista do veículo, a polícia checa todos os passageiros), uma batida da Imigração em locais de trabalho ou uma denúncia. Indocumentado não pode ter inimizades. Não pode nem mesmo ser mais firme com o patrão que não quer lhe pagar o que lhe deve. Além de não haver onde o trabalhador se queixar, neste caso (o patrão pode se vingar). O charme brasileiro também joga contra: uma canadense denunciou um belo brasileiro que não aceitou ir para a cama com ela. E, vejam só, um marido de mentirinha foi à loucura quando flagrou a brasileira com o namorado de verdade. Ciúmes é fatal.

Em Toronto, a prisão da Imigração fica em um discreto prédio na Rexdale Boulevard. Depois da identificação do visitante, se entra em um ambiente de filme – no mau sentido. Cabines onde visitante e preso ficam separados por um vidro. Mãos se tocam pelo vidro, abraços são impossíveis. Lágrimas rolam dos dois lados. A conversa é por um telefoninho, naturalmente grampeado. Entre amenidades, como as que se fala em velório, curiosamente muitas vezes se repete uma em que o preso diz “quebrou a calefação aqui, tenho passado muito frio”. Por trás do preso que se visita passam famílias inteiras rumo a outras cabines, inclusive com crianças pequenas, para desespero dos avós visitantes. Já fiz várias dessas visitas e sempre saio arrasado. Dói demais – e isso que eu sou apenas o visitante, que vai levar uma palavra de conforto.

A prisão dura em média pouco menos de uma semana, durante a qual há um julgamento de cartas marcadas – como os de certos juízes brasileiros –, onde o preso aparece só em vídeo para um tribunal em outro lugar. Aí, só resta a um amigo a dolorosa tarefa de preparar a mala do preso, que vai da prisão direto para o aeroporto, sem sequer passar em casa uma última vez. O que não couber na mala, fica para trás. É caro demais mandar pelo correio, não vale a pena. Assim, em uma mísera malinha, termina o sonho mal planejado do Canadá. Como diz meu colega Cristiano de Oliveira, “adeus, cinco letras que choram”.

Sobre José Francisco Schuster (15 artigos)
Com mais de 35 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Foi, durante 8 anos, âncora do programa "Fala, Brasil", e agora produz e apresenta o programa "Noites da CHIN - Brasil", na CHIN Radio.

1 comentário em O drama dos deportados

  1. Não é tanto assim, tão assustando o pessoal a não ir…

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