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Para exercer o machismo da paquera


Por que razão as mulheres não podem flertar, chamar para sair e tomar a iniciativa? Até quando os relacionamentos terão de ser baseados na perspectiva masculina?

Imagem de divulgação no Instagram do app Bumble, que só libera a conversa quando as mulheres iniciam o texto.

Alexandre Dias Ramos é editor

Sucesso total a matéria de capa da nossa última edição, escrita pelo canadense Christopher Grant. Pelo visto, o assunto “dating” é algo realmente importante para muitos no Canadá, digo, para os brasileiros no Canadá. Em parte porque lá, no Brasil, sabemos naturalmente as regras do jogo da paquera, como é que algo se inicia, como se desenvolve, como microscópicos movimentos do corpo da pessoa avistada podem dar sinais de que há alguma chance para aproximação, etc. Aqui é completamente diferente: aos olhos de um brasileiro, os canadenses são estranhamente assexuados em suas investidas românticas, nenhum beijo pelas ruas, nem nos bares, e todo aquele flerte aprendido no Brasil… geralmente não funciona.

E quando realmente parece um flerte, não, não é. Então o brasileiro fica confuso. Claro, porque as regras são outras.

Mas há algo que me intriga nesse mundo da paquera, que é o aspecto majoritariamente machista que rege todos esses jogos de conquista. No Brasil, sabemos o quanto a cultura é super patriarcal; mas aqui, onde o machismo é tão mal visto e o feminismo é tão enaltecido (aliás, com toda razão), acho realmente um espanto os modos com que as mulheres se auto-representam e se autodescrevem nos aplicativos de paquera.

De modo geral, grande parte das descrições giram em torno de autoelogios, do tipo “I’m awesome”, “sexy lady”, “classy and sassy lady” – se vendendo como carne de primeira, ao estilo marketing anos 90 –, ou uma espécie de fake-feminism, onde a mulher diz que não gosta de jogos, é forte e poderosa, quer algo sério, mas suas fotos de biquíni, biquinhos “sexies” e festinhas agarradas com as “migas” dizem outra coisa – e nem vou comentar a bizarrice das aplicações de orelhas e narizes de cachorra. Outra coisa recorrente nas descrições é dizer que procuram um homem “que as façam rir” (Really?!). Essa é uma das piores, porque desejam um homem-objeto com função, no mínimo, tola, que possam usar para sua distração e não para um relacionamento baseado nas duas pessoas envolvidas – e, de mais a mais, há coisas bem mais interessantes a se fazer a dois, convenhamos.

Ok, estamos em tempos de parecer e não de ser; e talvez seja bem inocente da minha parte achar que esses apps são para algum tipo sério de relacionamento. Mas, enfim, voltando à questão machista, outra coisa a se notar é a premissa de que sempre – não importa o quê, onde e como – é o homem quem precisa dar o primeiro (segundo e terceiro) passo; o homem é quem deve escrever primeiro, dizer algo convincente, conquistar a outra pessoa, convidar e ter uma boa performance nos (não tão animados) dates que os bons costumes daqui exigem. As mulheres sempre realmente pressupõem (e esperam) que a iniciativa deve ser do homem, ou seja, que eles devem cumprir seu papel de conquistador, de caçador, e elas de se manterem passivas, avaliando a melhor oferta, aceitando ou rejeitando os flertes, e respondendo a mensagens apenas se os homens cumprirem bem sua posição de liderança. E mesmo quando surge um app que somente libera a conversa se a mulher iniciar o texto (como o Bumble) elas nunca o fazem de modo ativo, mas apenas com um “Hi” para que o homem, então, faça seu papel.

E por que razão as mulheres não podem escrever, flertar, chamar para sair, tomar as iniciativas de algo que sentem vontade de fazer? Até quando os relacionamentos terão de ser baseados na perspectiva masculina? Por que razão duas pessoas, quaisquer que sejam, não podem se aproximar, conversar e fazer o que sentem vontade? Se as super-poderosas-mulheres-maravilha ainda esperam que os homens as tornem seus objetos de desejo, acho que está havendo alguma inversão de forças aí.

Numa paquera, não importa quem toma a iniciativa, o que importa é que as pessoas possam se aproximar, conversar e se conhecer, sem que haja esse tipo retrógrado de divisão de gênero.

Sobre Alexandre Dias Ramos (4 artigos)
Alexandre é editor-chefe do Jornal de Toronto, mestre em Sociologia da Cultura pela FE-USP, doutor em História, Teoria e Crítica pela UFRGS, e membro-pesquisador da Universidade de São Paulo. É editor há 20 anos e mora em Toronto, Canadá.

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