Qual é o perfil dos evangélicos na maior cidade do Brasil?
Rodrigo Toniol é colunista do Jornal de Toronto
Ainda no primeiro semestre de 2024 fui convidado para compor um pequeno grupo de pesquisadores cuja missão era estruturar um questionário que seria aplicado na cidade de São Paulo pelo Instituto Datafolha sobre o tema “evangélicos e política”. Junto com o também antropólogo Juliano Spyer, a socióloga Christina Vital e o cientista político Vinícius do Valle, elaboramos um extenso questionário que nos ajudasse a entender qual é o perfil dos evangélicos na maior cidade do país.
Se agruparmos os resultados da pesquisa e montarmos um perfil médio do evangélico paulistano, suas características seriam a de uma mulher negra, com ensino médio completo, renda individual mensal de até um salário mínimo, casada, que frequenta uma igreja pentecostal pequena, com capacidade de, no máximo, 200 pessoas, mais de uma vez por semana.
Esse não é um perfil surpreendente. Há mais de uma década está consolidada não somente a presença feminina e negra nessas comunidades religiosas, como também poderíamos dizer que, numericamente, a religião mais negra do país é evangélica. No entanto, um dado que merece atenção, captado pela pesquisa e muito menos debatido pela opinião pública, e mesmo entre especialistas, diz respeito ao tamanho das igrejas. Ao contrário das imagens que se tornaram clássicas ao longo da década de 1990 e dos anos 2000, de templos evangélicos imensos que recebiam milhares de pessoas diariamente, a realidade cotidiana dos evangélicos em São Paulo é a de frequentar templos pequenos.
Esse fato importa por, pelo menos, duas razões. A primeira delas é que esse dado nos reafirma que, ao falarmos dos “evangélicos”, estamos tratando de um grupo muito diverso internamente. Essa diversidade está expressa nas inúmeras igrejas que se espalham pelas cidades brasileiras, cujos perfis teológicos, políticos e comunitários variam bastante. A segunda razão da relevância, do fato das pequenas igrejas serem a maioria, diz respeito ao progressivo questionamento que pastores com perfil político-midiático têm sofrido ao pretenderem falar em nome de todos os evangélicos.
Sobre a relação mais explícita entre religião e política, mais de 76% dos evangélicos entrevistados afirmaram serem contra que líderes religiosos usem o culto de suas igrejas para falarem de assuntos políticos. Diante da consolidação de um perfil de evangélico que cada vez mais se reconhece a partir de sua própria diversidade, e que se incomoda com o uso político do púlpito, resta saber quais serão os efeitos disso para as transformações na nossa relação entre religião e política ao longo dos próximos anos.

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