Ele já não é mais o mesmo
Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto
Saudações, meu povo.
Foi no inverno de 2004, há exatos 21 anos, que eu escrevi pela primeira vez para um jornal brasileiro em Toronto, na época o Brasil News. Se você já está na praça há um tempo, talvez já tenha lido algum artigo meu. Ou talvez não, porque resolveu ser metido a besta e não pega jornal brasileiro no açougue pra fingir que é gringo. Eu não devia, mas vou avisar: não adianta. Uma hora você vai ter que falar “Batman” e vai entregar a paçoca falando “bátima”. Portanto, relaxe. Entregue logo pra portuguesa do caixa que você é do Brasil, pegando um exemplar do Jornal de Toronto pra ler à moda antiga, folheando como papai fazia – o que antes era banal, hoje é uma experiência retrô.
Olha só que tristeza, o texto durou três linhas e eu já mudei de assunto. Isso tem acontecido às vezes, e é uma das coisas que me deixa cabreiro. É definitivamente um grande prazer voltar a colaborar com o Jornal de Toronto, onde escrevi entre 2017 e 2022, mas ao mesmo tempo dá medo por um simples motivo: o tempo passou, a idade avançou, e já não sei quem eu sou (e se nesse momento você sentir uma gotinha caindo na cabeça, é Carlos Drummond de Andrade chorando de tristeza no céu). Mas a pergunta é válida mesmo: quem é esse cara hoje em dia? Escreve como? Jogou com quem? Tava fazendo o que nesse meio tempo, tava preso? Tava na droga? Ah, certamente é droga. Ou foi jogo de sinuca valendo? Perdeu tudo no baralho?
Tá vendo como é a peste da idade? Num mundo em que tá todo mundo endividado por apostar nas Bets, o eunuco de faraó ainda tá na casa de Potifar falando em jogar baralho valendo! Quem é que faz dívida com baralho a dinheiro hoje em dia, quando a tecnologia se coloca a serviço pra facilitar a vida do cara que quer se lascar? É, tem jeito não, a gente vai ficando pra trás. Lá naquele início dos anos 2000, eu fazia um show de anos 80 no violão e voz, e era sempre muito animado. Hoje em dia, ou é a vasta maioria do público brasileiro em Toronto que desconhece essa época longínqua, ou é porque não combina um cara de óculos e barba meio grisalha tocando Plebe Rude. Você continua se sentindo a mesma pessoa, mas o mundo tá vendo outra coisa.
Muitos dos meus contemporâneos se acabavam de dançar house, Milli Vanilli, Technotronic e outras modas de outrora, em seguida viraram ratos de Micareta, dançaram muito axé… Mas daí o tempo foi passando e, naquele desespero da idade batendo, e na necessidade de se tornarem “diferenciadões”, esconderam o passado debaixo do tapete, viraram todos devotos do roquenroll e inimigos de todos os outros estilos. Que coisa, daí você chega ao Brasil e tá aquele monte de véi bobo suando camisa social Dudalina em show de banda cover do Queen. Eu descobri o rock aos 15 anos, deixei o cabelo crescer e virei ímã de bullying por causa disso. Fui chato, fui besta de não dançar passinho e ver show do Asa de Águia, e ainda por cima era o primeiro que a polícia mandava botar a mão na parede. Mas colecionei discos, comecei a tocar, aprendi muito, e acho que o rock e esse pedantismo que ele traz passou por mim no momento certo da vida. Daí ele se sentou ao lado de vários outros estilos, e nós todos convivemos em paz. E não, não cuspo no prato nem virei defensor de outros estilos, pelo contrário, tenho minhas críticas a todos. Só não sou diferenciadão nem quero ser, meu conhecimento de rock e minha bela coleção de discos de vinil não são armas pra enfrentar as novas gerações que vêm aí passando o trator. Se não sou o mesmo de 20 anos atrás, ao menos nesse ponto eu encarei a idade com dignidade.
Toda essa dignidade vai embora pelo ralo quando eu entro no bar Amigos da Dundas, sede do consulado atleticano Galo Toronto, com aquela mesma crista de Galo na cabeça que eu uso desde as antigonas. Virei meio que o Dadá Maravilha dos torcedores de futebol brasileiro aqui, aquele torcedor folclórico que você quer ver revoltado quando seu time ganha do dele (o que é raro, porque o Galo é uma força da natureza. E mesmo que por acaso perca, cê não vai me achar pra me zoar porque eu não sou besta de dar bobeira do seu lado!). Portanto, não, não sou melhor que ninguém: seja a ferro, no cartão ou no débito, se tem vergonha pra passar eu também passo; afinal, eu também ri da propagada do tio da Sukita, e também me tornei o próprio (com a exceção de que não mexo com mulher no elevador. Véio safado, aí não!).
Fiz 50 esse ano. Quem é esse cara agora? Aquele humor de 20 anos atrás era alimentado pelas roubadas que o recém-chegado encara. Dividir casa, ganhar pouco, trabalhar em tudo quanto é emprego, achar móvel na rua se pelando de medo de bedbug, conhecer um Brasil longe do Brasil, lidar com povos diferentes, limpar neve, botar ratoeira, encarar um zero medonho de mulher na vida – Ave Maria, que seca que foi aquela… E agora, como encontrar inspiração na vida pacata e bem resolvida? Mas não tô reclamando não, viu? Deus que me livre e guarde, eu deixo de escrever até cheque mas não quero voltar naquele tempo (Cheque!!!! O cara falou “cheque”. Ei Tio Barnabé, o que é isso?).
E no fim, esse é o grande detalhe: muito se diz, “no meu tempo era melhor”, mas não, no meu tempo não era melhor. A única certeza que eu tenho, que me faz esquecer a dúvida e o medo que o avançar da idade me traz, é a de que o tempo bom é o presente. Terei saudades, arrependimentos? Definitivamente, pois são partes saudáveis de nós, mas com a certeza de que o presente é bom demais e que é muito bom poder viver e produzir nele, seja de que jeito corpo e mente ainda consigam. Como isso vai se traduzir no papel eu não sei, só sei que “faz escuro mas eu canto” (Thiago de Mello).
Adeus, cinco letras que choram.

Ilustração “Tempo”, de Valf.

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