O que as eleições municipais projetam para a eleição de 2026
André Oliveira & Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto
Um dos fatos mais marcantes nas eleições municipais de 2024 foi certamente o surgimento na arena pública do influencer Pablo Marçal, candidato à prefeitura de São Paulo, que utilizou linguagem desabrida e o recurso às fake news contra seus adversários, método provocativo que lhe rendeu a já famosa “cadeirada” do apresentador de TV Datena, candidato do PSDB, em debate ao vivo, no último dia 15 de setembro. A despeito de atuar fora das regras mais comezinhas de tolerância política, Marçal por pouco não chegou ao segundo turno. O ex-coach não foi o primeiro candidato a cargo majoritário – e certamente não será o último – a usar o discurso da antipolítica para se distinguir dos demais concorrentes. Populistas demagogos se apresentam habilmente como salvadores da pátria enquanto predicam contra “o sistema político” que oprime o povo.
Mas, em uma entrevista televisiva, Marçal disse que “a direita não tem dono” se comparada com a esquerda brasileira. Como corresse solitariamente em sua raia, vale dizer, sem o apoio explícito do ex-presidente Jair Bolsonaro, o crescimento eleitoral (e surpreendente) de Marçal validou, em larga medida, sua própria assertiva.
Os resultados do primeiro turno mostraram que o bolsonarismo conseguiu mais prefeituras do que o lulismo, mas chama a atenção que os partidos que formam o chamado Centrão tenham galvanizado o maior número de prefeituras em todo o país. No topo, o PSD de Gilberto Kassab ficou com 882 prefeituras, ao PL bolsonarista tocaram 512 e ao PT, 248. Claramente, o Centrão e a extrema-direita, representada pelo PL, levaram a melhor, mas isto não significa que caminharão juntos em 2026 porque é muito cedo para antecipar qualquer predição neste sentido e também porque, como pontuou o aloprado Marçal em raro rasgo de lucidez, “a direita não tem dono”.
No mesmo passo, é cedo para predizer que o PT está liquidado, considerando o baixo desempenho no primeiro turno das eleições municipais em nível nacional. O lulismo é sabidamente maior do que o petismo e subjaz como efetiva força política nas camadas socialmente mais vulneráveis do eleitorado. Dito de outro modo, as condições objetivas para a reeleição ou derrota de Lula – como desempenho da economia e união ou divisão da direita – somente poderão ser aferidas efetivamente em 2026. Todavia, inteligente como é, Lula deve ter percebido o movimento de placas tectônicas do eleitorado brasileiro em direção à agenda da direita, a nova realidade que precisará enfrentar com inventividade.

Deixe uma resposta