Passada “a eleição do fim do mundo”, o que virá?

Mesmo num Fla-Flu, é preciso aceitar as regras do jogo

Foto: Stefan Schweihofer.

André Oliveira & Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto

Os brasileiros que vivem no Canadá talvez não tenham percebido, ao menos em sua totalidade, o ambiente apocalíptico que envolveu o processo eleitoral encerrado em 30 de outubro deste ano. Nunca houve uma polarização tão exacerbada como a que marcou a última eleição presidencial, quase um Fla-Flu furioso ou, como preferem os colunistas aqui, um Re-Pa incandescente que decidisse uma final da Libertadores da América.

É evidente que não se tratava da “eleição do fim do mundo”, embora, como ressaltamos em outra coluna, seja comum em campanhas eleitorais apontar para a catástrofe que virá caso o adversário vença. Se os partidos e os atores políticos relevantes aceitam as regras do jogo, dentre as quais se inserem eleições livres e justas, quem perdeu hoje pode retornar amanhã e, do outro lado, quem venceu sabe que precisa fazer um bom governo se quiser postular a reeleição com chances de vitória. A repetição do jogo político engendra cooperação e dissemina informações entre os players, de modo a diminuir os custos de transação para todos, como apontam as teorias institucionalistas.

Infelizmente, após o anúncio do resultado, muitos foram às portas dos quartéis e interditaram vias públicas e estradas para reclamar intervenção militar, alegando que houve fraude eleitoral, sem que fossem apresentadas evidências disso. Ditaduras nunca são superiores às democracias, porque criam obstáculos à contestação pública – dissidentes são presos ou interditados, a imprensa independente sofre censura – e à prestação de contas pelos governantes; ou seja, as instituições de controle como o Judiciário perdem sua autonomia e, como consequência, a corrupção cresce e, o que é pior, se torna invisível. Talvez – e, aqui, especulamos – tenha faltado ao Brasil passar a limpo o que, de fato, sucedeu durante o regime militar (1964-1985), o que incluiria punir quem praticou tortura e assassinato oficial sob o argumento de ter sido necessário para combater a guerrilha comunista. A Argentina sancionou com penas muito duras os generais que conduziram a máquina estatal de tortura e extermínio em julgamento público, como pode ser visto no ótimo filme Argentina 1985. Talvez seja por isto que os argentinos não alimentam sentimentos saudosistas em face da ditadura, como fazem muitos brasileiros e também alguns movimentos políticos chilenos, como a Frente Nacionalista Patria y Libertad. Enfim, como ensinou Karl Popper, mais vale uma democracia em dificuldades do que uma ditadura benevolente – esta é uma lição que os brasileiros deveriam inscrever no marco de suas convicções políticas.

Tudo indica que Lula venceu a eleição por ter sido o menos rejeitado e por ter procurado caminhar para o centro democrático, buscando a adesão de liberais insatisfeitos com o ambiente de intenso stress institucional, algo que o presidente Jair Bolsonaro recusou desde o início do mandato. Com o eleitorado praticamente rachado ao meio, caberá mais ao novo governo do que à oposição demonstrar que vale (muito) a pena preservar as instituições da democracia, o que implica reconhecer que não há inimigos na arena política, mas apenas adversários que aceitam as regras do jogo.

Sobre André Oliveira & Rodolfo Marques (32 artigos)
André Oliveira (à esquerda) é advogado com especialização em Direito Público, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco e membro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) desde 2009. Rodolfo Marques é analista judiciário, publicitário e jornalista; Mestre (UFPA) e Doutor (UFRGS) em Ciência Política, e professor de Comunicação Social na Universidade da Amazônia e na Faculdade de Estudos Avançados do Pará.

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