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Unidos para o mal


Ainda fico chocado, passado mais de meio ano das eleições, como um projeto de ódio conseguiu ser vitorioso no Brasil.

Ilustração de Marcelo Monteiro.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Ainda fico chocado, passado mais de meio ano das eleições, como um projeto de ódio conseguiu ser vitorioso no Brasil. Fica ainda mais complexo de entender porque não faz tanto tempo assim que o país passou por uma violenta ditadura militar. Eu a vivi, ninguém me contou. O que me deixa estupefato é de que naquele difícil momento da história, em que íamos às ruas em manifestações enfrentar militares fortemente armados atirando bombas de gás lacrimogênio e com policiais infiltrados nas universidades, a população estava unida em torno de um ideal democrático, que se viu mais uma vez, anos depois, nas ruas lotadas em favor das Diretas Já. O lema “ditatura nunca mais” consolidou-se e pareceu-me que a questão era página virada.

É desconcertante, portanto, ver que em 2018 o pior que existe no ser humano veio à tona como projeto de governo e de país, e conseguiu ser vitorioso. Sentimentos de ódio não só afloraram, como foram legitimados pelo poder instalado. Hoje, há quem se diga cristão e faça arminha com as mãos, sem perceber que está crucificando de novo a Jesus Cristo. Tornou-se corriqueiro e até moda ser machista, misógino,  racista (apesar de ser proibido em lei), homofóbico, ter preconceito contra pobres, nordestinos, deficientes, esquerdistas e assim por diante. Ataques a quem não tem o pensamento alinhado ao poder não ocorrem mais dentro de um debate democrático, como antes, mas vêm carregados da mais profunda intolerância.

Ilustração de Marcelo Monteiro.

O governo, por seu lado, além de reforçar a discriminação nas palavras de seu próprio mandatário, ainda abriu uma caixa de Pandora, libertando o que jamais se imaginou: o desmatamento indiscriminado da Amazônia, a liberação de dezenas de agrotóxicos, o perdão a dívidas bilionárias de poderosos, um grande afrouxamento ao uso de armas, enquanto ataca com todas as forças os direitos previdenciários (dos outros, não dos encastelados no poder), os direitos trabalhistas, a educação, e entrega as riquezas do país.  O pior é que muitos ainda apoiam tudo isso, cegos ao desmonte do Brasil e às consequências que vão recair sobre eles próprios.

Vim para o Canadá nos anos 90 como “refugiado” econômico do desgoverno de Fernando Henrique Cardoso, que já provocava severos danos ao país. Hoje, me sinto literalmente como refugiado político. É deprimente ver o Brasil, um dos maiores países do mundo, com riquezas naturais como poucos, um belo parque industrial e universidades que, apesar de tudo, ainda conseguem produzir bons profissionais, naufragado nos sentimentos mais mesquinhos. Em tempos que parecem medievais, está difícil e até perigoso uma pessoa do bem viver lá.

Sobre José Francisco Schuster (26 artigos)
Com mais de 35 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Foi, durante 8 anos, âncora do programa "Fala, Brasil", e agora produz e apresenta o programa "Noites da CHIN - Brasil", na CHIN Radio.

2 comentários em Unidos para o mal

  1. Parabens!! Sua article diz exatamente o que aconteceu e esta acontecendo no Brasil.

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  2. Muito bom o seu texto, Schuster. Minha família também foi vítima da ditadura, perdi dois tios, mortos por serem contra o sistema.
    Além de racismo, misoginia, etc, etc, acrescento o egoísmo – empresários e políticos que não se importam com o bem comum, com o bem do país, mas com os seus bolsos.
    É muito triste ver o Brasil caminhando para o abismo, e tanta gente aplaudindo.

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