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Arquivos da História em dois filmes imperdíveis


“Apolo 11” e “They Shall Not Grow Old”.

Ilustração de Valf.

Valf é ilustrador e escritor

Dois documentários recentes revisitam diferentes e marcantes momentos da história do século XX e, aliados à tecnologia de ponta, criam importantes obras que propõem o melhor entendimento dos fatos narrados e uma impactante reconstrução do imaginário.

Apollo 11

Apollo 11, do diretor Todd Douglas Miller, acompanha os passos dos astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins e a chegada do homem a Lua, em julho de 1969. Ao contrário do que possa ser imaginado, o filme nada tem de enfadonhas projeções das mesmas cenas que há décadas são repetidas à exaustão. O documentário ganha contornos épicos nas mãos da equipe que realizou o filme a partir de um tesouro que havia ficado guardado por anos. Em depósitos da NASA foram encontrados mais de 11.000 horas de material inédito, entre áudios e filmagens profissionais feitas em 70mm, a maior resolução então disponível na época. O resultado final é um longa-metragem com mais de 60% de sua projeção composta por imagens nunca antes vistas pelo grande público. Os negativos foram escaneados em resolução 8K, para minimizar as perdas com uma transcrição do celuloide para o meio digital.

Miller constrói uma narrativa até certo ponto convencional – afinal, os fatos narrados são muito bem conhecidos –, contudo, faz apostas estéticas que transformaram o produto final e consegue efetivamente transmitir a grandiosidade e complexidade que foi o projeto espacial norte-americano. O filme, por exemplo, não tem um narrador. O que ouvimos em sua maioria são os áudios de comunicação entre astronautas e as salas de controle. O primeiro ato (até o lançamento do foguete Saturn V) começa com os momentos de preparação que antecedem o embarque, detendo-se no semblante dos astronautas e seu misto de concentração e tensão. Paralelo a isso, entrecortando as imagens das equipes de apoio em terra com tomadas aéreas do enorme público nas praias ao redor do Cabo Canaveral, o diretor começa a trabalhar com as relações de escala. Não só de tamanho, mas também de tempo. Vemos o diminuto trabalhador que caminha ao lado do colossal transporte do foguete, que se arrasta pesado pelo terreno até a área de lançamento. Enquanto leva os tripulantes para o topo do foguete, uma câmera acoplada ao elevador mostra trabalhadores (novamente minúsculos) fazendo os últimos ajustes na fuselagem. O espectador então começa a ser informado sobre o tempo restante até o começo da missão. E é nesse ponto que o filme é extremamente efetivo. Embora todos já saibam o final da história e que tudo correu bem, é impossível não ser fisgado pela crescente tensão nos momentos-chave. A decolagem, os acoplamentos, o pouso na Lua (com o marcador que mostra o combustível rapidamente acabando). Mensurar estes parâmetros é fundamental no filme, para o espectador entender a complexidade, a margem de erro próxima a zero e quanto a missão espacial foi precisa em seus detalhes.

Juntando-se a isso, temos a curiosa e indispensável trilha sonora. Curiosa porque a primeira audição cria certo estranhamento, por parecer um pouco deslocada no tempo. A trilha soa como tendo sido composta na metade da década de 70 e começo dos 80, por músicos como Giorgio Moroder ou Jean-Michel Jarre. Criada por Matt Morton, a trilha uniu orquestra e música eletrônica, usando apenas aparelhagem e instrumentos que existiam até 1969, o ano de lançamento da Apollo 11.

Hot Docs Ted Rogers Cinema – 506 Bloor Street West, Toronto (Tue., May 7, 12pm; Wed., May 8, 12:30pm e 3pm; Thu., May 9, 12:30pm e 3pm; Sat., May 11, 2:30pm; Mon., May 13, 1:30pm e 8:45pm; Tue., May 14, 3:30pm; Wed., May 15, 1pm). Conferir também os horários nos cinemas: TIFF Bell Lightbox, Revue Cinema, Famous Players Canada Square Cinemas, Fox Theatre e Cine Starz Mississauga.

They Shall Not Grow Old

Revisitando a Primeira Guerra Mundial, o premiado diretor neozelandês Peter Jackson (Senhor dos Anéis) cria uma obra surpreendente. They Shall Not Grow Old é uma homenagem de Jackson a aqueles que pereceram durante o conflito armado no começo do século XX. O diretor teve acesso a um vastíssimo material cinematográfico dos arquivos do Imperial War Museum e também áudios da BBC. Teve que fazer a escolha entre centenas de possíveis histórias e acabou escolhendo acompanhar um grupo de soldados ingleses, desde seu alistamento até os campos de batalha.

Assim como em Apollo 11, a história da Primeira Guerra também é muito bem documentada. Peter Jackson cria uma obra marcante. Sempre que vemos filmagens do período, temos, apesar do inestimável registro histórico, inúmeros problemas técnicos. É de se imaginar o cinegrafista, carregando uma câmera com peso que poderia superar 5 quilos, apoiá-la em um tripé e, enquanto ajeitava o maquinário, tentar manter o movimento perfeito de duas voltas da manivela da câmera para ter a captura de 16 quadros por segundo. E tudo isso entre tiros e explosões. O resultado por vezes era escuro demais e em outras superexposto, estourando a luz da cena. A velocidade de filmagem, quase nunca precisa, criava uma movimentação totalmente antinatural das pessoas em ação. O magistral trabalho da equipe técnica de Peter Jackson retrabalhou os negativos originais. Primeiro escaneou em altíssima resolução e corrigiu as imperfeições de exposição. O que não era visível antes surge com detalhes na projeção. O próximo passo foi consertar a velocidade dos imprecisos 16 fotogramas de média para os 24 quadros por segundo. Houve utilização de 3D em frames extras para gerar o intermeio do movimento real. O velho e arranhado filme em preto e branco e seu movimento desconexo explode na tela em uma filmagem extremamente vívida e natural.

Coleções de armas e uniformes foram usadas como referência para a colorização, além de visitas recentes aos campos de batalha e seus tons. É bom lembrar que o primeiro filme falado só seria realizado uma década depois dessas filmagens, por isso Peter Jackson usou leitura labial para captar as conversas dos soldados, dubladores para poder dar voz ao campo de batalha, além de uma intrincada sonoplastia.

E o resultado final da empreitada de Jackson é assombroso. Em vários sentidos. A chamada “guerra de trincheira” ganha uma nova definição e as cenas dos campos de batalha um horror gráfico mais palpável. Muitos dos ex-combatentes eram menores de idade na época, por exemplo. A câmera de filmagem, não tão conhecida como a máquina fotográfica, era um objeto estranho ao front. Os soldados, curiosos, não entendendo a dinâmica, por várias vezes ficavam estáticos, encarando por longos períodos a lente da filmadora. They Shall Not Grow Old, cujo título é referência a um trecho de um poema em lembrança aos que tombaram na Primeira Guerra, recria imagens impactantes e, ao lado dos inúmeros depoimentos dos combatentes, traz uma nova visão do dia a dia no campo de batalha e consegue, de certa forma, humanizar uma das mais tristes páginas da História mundial.

Hot Docs Ted Rogers Cinema – 506 Bloor Street West, Toronto (Tue., Apr 23, 1pm; Wed., Apr 24, 4pm)

Ilustração de Valf.

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1 comentário em Arquivos da História em dois filmes imperdíveis

  1. Excelentes dicas! Já assisti ao do Peter Jackson, é realmente sensacional como ele consegue trazer para o presente uma narrativa de mais de 100 anos atrás, que retrata um mundo tão distante do nosso atual, usando um material de arquivo que, de tão rico, poderia tornar o documentário maçante. E o efeito é justamento o inverso!

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