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O véio e a praia


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Letícia Tórgo é escritora, tradutora e produtora cultural

Marcio estava mais do que animado com o verão. Pela primeira vez, desde que se mudou para o Canadá há quatro anos, teria seu pai com ele. Era a primeira viagem internacional do véio (como ele carinhosamente o chamava) e Marcio queria que tudo fosse perfeito.

Criou um Excell com os programas que ele curtia no Brasil, mapeou os pontos turísticos tradicionais de Toronto (deixando de fora os museus) e ainda planejou uma esticada em Montreal e Ville de Québec, para onde iriam de trem. “Importante: planejar almoço e jantar todos os dias.”

Buscou seu pai no aeroporto, de carro compartilhado para causar uma boa impressão, mas o véio estava tão cansado que só queria ter um pouco mais de espaço entre o banco e o painel para esticar as pernas.

Nos dias subsequentes, seguiram o planejado, sempre tirando um ou dois itens da lista. Seu pai não teria forças para conhecer tudo o que ele queria no ritmo que imaginou. Reduziu a velocidade e se permitiu curtir aquele momento único, mostrando gingado no inglês, enrolando no francês e apresentando seus amigos do mundo inteiro ao pai orgulhoso.

Há dois dias de voltar para o Brasil, o pai fez um pedido inusitado. Uma tarde na praia, uma cadeira para relaxar, pés na areia e uma cerveja gelada. Emendou o pedido perguntando se eles conseguiam comprar por ali uma daquelas cervejas que eles tomaram juntos em Montreal, em uma brasserie que ele não lembra o nome. E finalizou: só um pouco mais gelada do que aquela.

Marcio não podia negar o pedido do pai. Cancelou a reserva no restaurante funky do Distillery District, alugou um carro de última hora e partiu para a praia com o véio. Mesmo tijucano com orgulho, Marcio estava longe de ser o típico carioca que curte fechar o dia na calçada, tomando um chopp gelado de havaianas e areia nos pés. Já seu pai, era desses, sem tirar nem pôr. E se tivesse pagode, era ainda melhor.

O dia passou lento e o véio conseguiu até mesmo tirar um cochilo na sombra de uma árvore de maple. Na estrada de volta, “uma reta sem fim”, como ele diria, deu seu parecer. Não teve cerveja. A areia um pouco escura. A água doce, gelada, sem ondas. Os biquínis, preferiu não comentar. Mas o véio estava tranquilo. Se para ele o Canadá não era perfeito, sabia que seu filho estava feliz aqui.

Já podia voltar para casa cheio de orgulho e lembranças na mala. Ainda sem data para uma nova visita.

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