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Salário mínimo é disfarce para escravidão


Um mínimo de dignidade para, ao fim de um mês de trabalho, ao menos pagar as contas.

Foto: Leroy Skalstad.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Quando um patrão paga salário mínimo, está embutindo a mensagem de que “não acho que seu trabalho valha tanto; só não lhe pago menos porque a lei não me permite. Ah, que saudades da escravidão!”. Embora seja politicamente incorreto verbalizar isto, os militares da ditadura militar brasileira tinham a cara-de-pau de chegar a colocar por escrito, com os contracheques dos auxiliares de serviços gerais (faxineiros) do serviço público federal, que recebiam um salário de fome, uma segunda linha onde se lia “complementação para atingir o salário mínimo”.

Na Europa e América do Norte, incluindo o Canadá, o salário mínimo é um pouco melhor, não por bondade dos patrões, mas simplesmente devido ao inverno. Com o frio intenso, é impossível ao trabalhador viver com sua família em um barraco ou embaixo de uma ponte, como no Brasil, senão a mortandade se transformaria em um escândalo internacional. Não quer dizer, contudo, que o salário mínimo canadense, que varia por província, permita uma vida sem sobressaltos.

Uma refugiada de Bangladesh, que veio para o Canadá para escapar de um casamento arranjado com um homem que já tinha três esposas, contou ao jornal The Globe and Mail em 2014 a dificuldade de viver com salário mínimo. Trabalhando nas madrugadas em uma casa para pessoas com deficiência física e mental, $850 dos $1.200 que ganhava por mês iam para o apartamento subsidiado, que dividia com o pai e o irmão doentes. Para comer, eles dependiam de um banco de comida (food bank), mas as duas passagens para ir até lá eram um peso a mais para quem não conseguia sequer pagar um passe mensal de transporte coletivo (o Metropass).

Agora, a proposta das províncias de Ontário e Alberta de aumentar o salário mínimo para $15 a hora encontra reações alarmistas dos bancos e do empresariado, alegando que haverá desemprego. Economistas rebatem que no momento em que Ontário tem a menor taxa de desemprego em 16 anos (de 5,8%), os patrões dizem não podem pagar mais? Além disso, salários maiores reduzem a rotatividade, os custos de recrutamento, e aumentam a produtividade.

Afinal, quem tem cabeça para trabalhar pensando que não há comida em casa? E como se concentrar, sabendo que a maior despesa mensal, o custo de moradia, está crescendo abusivamente no Canadá, com grandes altas nos preços de imóveis e aluguéis? Como diziam os Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Um mínimo de dignidade para, ao fim de um mês de trabalho, ao menos pagar as contas. A escravidão pode ter acabado no papel, mas não podemos ter salários que remetam a ela.

Sobre José Francisco Schuster (6 artigos)
Com mais de 30 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Foi, durante 8 anos, âncora do programa Fala Brasil, inicialmente pela rádio Voces Latinas e posteriormente pela Camões Rádio.

1 comentário em Salário mínimo é disfarce para escravidão

  1. Grande Schuster, excelente matéria. Abraços

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