Língua portuguesa não é apenas um idioma, mas um abrigo
Jananda Lima é professora da OCAD University e pesquisadora de design decolonial
Desde dezembro de 2025, uma vez por mês, um grupo de brasileiros tem se reunido em Toronto para algo simples e raro: parar, escutar e dizer poesia em voz alta. O sarau é organizado por mim, Jananda Lima, junto com Edwin Isensee e Leticia Stello. A proposta é direta: qualquer pessoa pode trazer poemas autorais ou não, ler um texto curto, compartilhar uma letra de música, ou simplesmente chegar para ouvir.
Essa abertura tem sido a chave. Não existe exigência de “saber recitar”, nem uma ideia de performance perfeita. O que existe é um espaço de presença, cuidado e coragem cotidiana, num ritmo que contrasta com a pressa de quem vive em uma grande cidade como Toronto.
O sarau tem acontecido graças à generosidade de Ulysses de Paula e Joy Brandt, do Lá em Casa, que cederam o espaço para que essa roda pudesse existir. O resultado tem sido um lugar de encontro onde a língua portuguesa não é apenas um idioma, mas um abrigo. Como disse Celina Bernardes: “Eu acho que está sendo um momento para compartilhar e construir vínculos. É esse resgate do que nos une como brasileiros nesse contexto de imigração. Está se criando um espaço de acolhimento e de troca boa”.
Para muita gente, a experiência vai além do evento em si. Andrea Moraes descreve o sarau como um reencontro consigo e com a comunidade: “Uma vez por mês sinto que posso ser eu mesma, aquele eu que gosto de ser, que ainda tem criatividade, sem me sentir julgada. A vida aqui é muito difícil. A gente tem segurança, mas não tem o sol, não tem o calor humano. Eu estou num momento que não quero mais correr e aí procuro o que é importante pra mim; e achar esse espaço aqui é como se eu tivesse ganhado na loteria”. E talvez um dos impactos mais bonitos seja o efeito prático disso, como Andrea também relata: “Eu não escrevia uma poesia havia trinta anos. Esse ‘portal’ está se abrindo de novo para mim por conta dessa experiência”.
Isabella de Carvalho reforça essa dimensão afetiva e coletiva: “É um momento de grande conexão entre as pessoas que migraram. Um lugar onde a gente consegue achar pontos em comum, trocar ideias e afetos, expor vulnerabilidades e reflexões”. Ela destaca também a importância da língua: “Eu acho muito importante ser em português, porque às vezes não temos a oportunidade de falar sobre subjetividade na nossa língua. Isso permite que a gente se expresse com mais verdade, com mais espontaneidade”.
Nilson Peixoto resume de um jeito direto o que muita gente sente antes de chegar: “No meu caminho, dirigindo, eu penso: poxa, que gostoso que vai ser. Aquela alegria, bem tranquila”.
Talvez seja isso: uma alegria tranquila que aquece. Um encontro mensal para lembrar, juntos, que a palavra também é casa.

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