Estados Unidos, Trump e América Latina: quando o autoritarismo morde a própria cauda
André Oliveira & Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto
Desde o fim da II Guerra Mundial até bem recentemente, os Estados Unidos eram o modelo político predominante que projetava democracia política compatibilizada com abertura econômica, de modo a produzir uma das sociedades mais avançadas e prósperas do planeta. Duzentos anos ininterruptos de testes, crises e superações indicavam a resiliência do referido modelo e sua capacidade de resistir a tentações autoritárias. Ocorre, todavia, que o novo mandato do presidente Donald Trump está submetendo a forte estresse a convicção na solidez das instituições da democracia fundada no século XVIII naquele país.
O caso estadunidense é exemplar, ao mostrar que o autoritarismo não surge hoje de rupturas bruscas, mas de um processo gradual e sequencial de erosão das instituições políticas da democracia liberal – os golpes militares com tanques nas ruas são coisa do passado. Curiosamente, Trump parece seguir, à risca, o roadmap para o colapso das democracias apontado por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt no livro “Como as democracias morrem” (2018). Ou seja, Trump constrange o Judiciário a decidir conforme a sua vontade, demoniza os adversários políticos – a presença das tropas da Guarda Nacional em Chicago é um exemplo disso –, tenta mudar a lei eleitoral para favorecê-lo (o redesenho dos distritos eleitorais do Texas, fenômeno conhecido como gerrymandering, mostra tal determinação) e pressiona a imprensa livre que ousa contrariá-lo (o WSJ foi acionado judicialmente em virtude de matéria que o vincula ao mal afamado Jeffrey Epstein).
Se uma democracia consolidada, como a dos Estados Unidos, pode ser alvo de ameaças diretas às suas instituições, o fato sugere que não há uma fórmula infalível que evite o incremento do autoritarismo. E é inescapável pensar que o autoritarismo encontra um terreno ainda mais fértil na Europa, que já conheceu os totalitarismos e, claro, na América Latina, cuja tradição caudilhesca é muito forte – a Bolívia conheceu dez constituições no século XIX e o Brasil experimentou a ditadura do Estado Novo (1937-1945) e do regime militar (1964-1985).
Para enfrentar tais ameaças, não há outro caminho senão resistir. Primeiro, é preciso saber identificar os líderes autoritários. Eles se apresentam frequentemente como salvadores da pátria, estigmatizam os adversários chamando-os de traidores, etc. e, acima de tudo, tentam escapar ao cumprimento da lei, atacando a legitimidade das instituições de controle como o Judiciário, a imprensa, etc. Se você já viu algum líder se comportar assim, cuidado – você está diante de um lobo em pele de cordeiro. As promessas de redenção e grandeza vão terminar certamente com menos liberdade e dinheiro no bolso (porque, ao enfraquecer as instituições de controle, a consequência imediata é o aumento da corrupção estatal).
As democracias, por sua natureza, são sistemas imperfeitos e em constante construção. Dependem não apenas de leis formais, mas de normas informais – como a tolerância mútua e a contenção institucional – que limitam excessos e garantem a convivência entre adversários. Quando essas normas se enfraquecem, o conflito político tende a se transformar em guerra aberta, e o tecido social começa a se desfazer. A história mostra que o equilíbrio democrático não se sustenta apenas por regras escritas, mas pela disposição coletiva em respeitar o dissenso e a alternância de poder.
O exemplo estadunidense sob o trumpismo mostra que democracias ainda não colapsam subitamente, mas morrem gradualmente; como a serpente ouroboros que morde a própria cauda, o autoritarismo acaba devorando a si mesmo e todos que o sustentam.

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