Os maiores riscos políticos para 2026

Tentar fazer predições é sempre muito difícil, especialmente quando os principais atores políticos ostentam comportamento errático… Dito isto, vamos aos Top 5 de 2026

André Oliveira Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto

Sem o aparato de que dispõe a empresa Eurasia Group, mas com decisivo apoio do Jornal de Toronto, estamos de volta para apresentar nosso relatório sucinto com os cinco riscos políticos de maior probabilidade de ocorrer em 2026. O ano de 2025 foi muito tormentoso e alguns riscos que apontamos – como, por exemplo, a guerra comercial deflagrada pelo presidente Donald Trump – confirmaram-se, infelizmente. A pretensão do presidente estadunidense de substituir a globalização econômica liberal por uma nova ordem mundial moldada segundo sua vontade assegura que 2026 será igualmente difícil de atravessar.

O incandescente Trump castigou especialmente o Brasil com tarifas fixadas em 50% sobre a importação de nossos produtos, criando dificuldades adicionais para o “governo Lula 3”, bem como intensificou a polarização política ao sancionar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), exigindo determinada conduta do Judiciário brasileiro. É verdade que depois houve recuo do governo dos Estados Unidos em algumas decisões tomadas sobre o Brasil, mas o ambiente político de alta volatilidade persiste. Em 2026 haverá também eleições majoritárias no Brasil e essa agenda entra em nossos cálculos.

Tentar fazer predições é sempre muito difícil, especialmente quando os principais atores políticos ostentam comportamento errático, como sucede com o presidente Donald Trump e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) que, em prisão domiciliar, tentou arrancar a tornozeleira eletrônica e, depois, indicou um dos filhos à sucessão presidencial, apesar da notória rejeição ao nome do ungido. Dito isto, vamos aos Top 5 de 2026.

1. O “Efeito Trump” e a instabilidade geopolítica global

2026 será o ano em que o presidente Donald Trump tentará incrementar a implantação de sua nova ordem global, dividindo o planeta em áreas de influência, sendo que os Estados Unidos estabeleceriam seu domínio agressivo sobre a América Latina, a Rússia sobre a Europa e a China sobre Formosa e áreas adjacentes na Ásia. Seria, por assim dizer, uma ordem mundial autocrática e a indiferença da Rússia e China diante das ameaças de Trump à Venezuela sugere que o referido arranjo já foi concertado entre as superpotências. Claro que uma ordem global definida pela força, e não por princípios compartilhados, como sucede com a ordem liberal, enfrentará forte resistência não somente dos europeus ocidentais, que se veem agora desamparados pelo aliado americano, mas de outros países que rejeitarem a condição de neocolônias. Enfim, o avanço do “Efeito Trump” enfraquece os mecanismos multilaterais de mediação e contenção de conflitos armados, elevando exponencialmente o risco de guerras regionais, choques globais e, portanto, de instabilidade sistêmica.

2. Expansão da crise fiscal brasileira

 Vamos ser francos: em praticamente todos os países há expansão do endividamento público em períodos eleitorais, não sendo, portanto, uma atitude isolada do atual governo. O problema é que a dívida do setor público brasileiro atingiu, em novembro de 2025, 78,1% do PIB, correspondendo a mais de 9 trilhões de reais, segundo dados do Banco Central. É verdade que houve crescimento econômico em mais de 2%, um resultado bastante satisfatório considerando os desafios provocados pelas sanções tarifárias americanas e pelo cenário mundial adverso, mas a probabilidade de ocorrer um incremento da crise fiscal é alta porque, como foi mencionado, 2026 é ano de eleição majoritária.

3. Escalada da polarização política interna

Em 2025, militares brasileiros e seus associados civis foram condenados pela intentona golpista de 8 de janeiro, um fato inédito em nossa história republicana. Ocorre, todavia, que, enquanto muitos veem o julgamento como um avanço de nossa institucionalidade democrática, outros consideram que o STF agiu de modo alinhado ao Executivo. O hiperativismo do STF dividiu a sociedade brasileira, criando aparentemente uma lacuna profunda que impede a formação de um consenso sobre valores políticos compartilhados. A menos que surjam candidaturas e projetos de centro, as eleições majoritárias de 2026 podem ser marcadas pela escalada da polarização política, não podendo ser descartado o recurso à violência pelos militantes mais exaltados. O problema pode ser ainda agravado por interferências externas, como o apoio do presidente Donald Trump a candidatos de extrema-direita e/ou ditos nacionalistas.

4. Crise climática e seus efeitos sociais e econômicos perversos

O Congresso brasileiro tem se mostrado pouco propenso a impulsionar a agenda ambiental, não somente pelo peso das bancadas rural e conservadora, mas também – e de novo – pela influência estadunidense, já que o presidente Donald Trump defende abertamente o uso das energias chamadas sujas, como, por exemplo, combustíveis fosseis. O risco, nada desprezível, é que o governo, em minoria no Congresso Nacional, não consiga evitar os desmontes regulatórios na área ambiental, de modo a afetar a posição brasileira na busca por energias limpas.

5. Agravamento da crise entre os poderes da república

A defesa da democracia pelo STF, embora bem sucedida, levou a Corte a um protagonismo nunca antes visto na história republicana. Movimentos políticos afetados pelas decisões do tribunal passaram a alardear a existência de uma “ditadura do Judiciário”, etc. Recentes choques entre o Legislativo e o Judiciário elevaram a tensão entre os ramos de Poder. As eleições de 2026 sugerem que as interações entre os três Poderes sejam dificultadas com acusações recíprocas de falta de legitimidade e/ou atuação à margem das regras da Constituição. No limite, uma crise desse tipo pode levar a uma situação inédita de (quase) paralisia governamental com evidente corrosão da crença coletiva no bom funcionamento das instituições. Este é um risco latente que não pode ser igualmente desprezado.

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De qualquer modo, se sobrevivemos a 2025, certamente podemos atravessar 2026 incólumes – bons marinheiros não temem mar agitado. Queremos agradecer ao Jornal de Toronto, em especial ao seu diligente editor Alexandre Ramos, pela parceria e, em nome dele, saudamos a todos os brasileiros e a todas as brasileiras que residem no Canadá.

Feliz 2026!

Sobre André Oliveira & Rodolfo Marques (49 artigos)
André Oliveira (à esquerda) é advogado com especialização em Direito Público, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco e membro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) desde 2009. Rodolfo Marques é analista judiciário, publicitário e jornalista; Mestre (UFPA) e Doutor (UFRGS) em Ciência Política, e professor de Comunicação Social na Universidade da Amazônia e na Faculdade de Estudos Avançados do Pará.

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