Existimos o ano todo
Luis Augusto Nobre é comunicador institucional
Junho sempre foi um mês colorido para mim. Segue sendo. Porém, as festividades ganharam mais cores e mais orgulho. Por contexto, junho tem uma das melhores celebrações para este cearense que escreve estas diversas palavras. As Festas Juninas sempre me encantaram, com suas bandeiras e balões multicores, mesmo que não precisem subir aos céus, mas que enfeitam praças, espaços públicos, paredes e corações.
Há alguns anos, também passei a viver com as celebrações inspiradas nas cores do arco-íris. É notório que as multicores começam a enfeitar os espaços físicos e virtuais no dia primeiro de junho, sendo retiradas em primeiro de julho. Embora as festas juninas se encerrem com a mudança do calendário, as comemorações pelo Mês do Orgulho LGBTQIA+ não deveriam ser encaixotadas. Junho finda, o orgulho não. Existimos o ano todo.
Desde que passei a reconhecer e viver minha identidade queer, vivo-a orgulhosamente 365 dias por ano – quando não um a mais nos anos bissextos. Passei a viver cada vez mais com autenticidade e sem pedir desculpas por quem eu sou. Ninguém se torna queer, mas podemos nos tornar pessoas com melhor autoestima quando percebemos que não precisamos da validação de outrem para existir. Também nos tornamos melhores quando aprendemos e respeitamos, além de nos livrarmos de preconceitos.
Eu tinha muito medo de não ser aceito e, por tanto, não me permitia ser pleno. Isso mudou com minha primeira experiência no Canadá, há mais de 15 anos. Vi avanços e retrocessos nos dois países que hoje dividem minha identidade. Vim para o Canadá para ter mais segurança como uma pessoa das comunidades 2SLGBTQIA+, pois o Brasil é líder em homofobia e transfobia, apesar do progresso nos direitos LGBTQIA+. E como dizemos em terras brasileiras, nem tudo são flores.

Em 28 de setembro de 2019, um grande número de pessoas se uniu para impedir uma marcha anti-2SLGBTQIA+ que pretendia cruzar o bairro Church-Wellesley Village, conhecido por ser o bairro gay da cidade de Toronto. Dentre os muitos grupos e ativistas organizadores, houve a liderança do centro comunitário The 519, com sua iniciativa Army of Lovers. Foto: Luis Augusto Nobre.
Precisamos reconhecer duas coisas: a primeira, que a vida privada de qualquer pessoa não nos diz respeito para aspectos legais; a segunda, que o mundo hoje passa por uma onda de conservadorismo e de ameaça aos direitos humanos, com foco em certas identidades. Vimos isso no Brasil liderado por Jair Bolsonaro, estamos testemunhando nos Estados Unidos de Donald Trump, e quase vivemos isso com a possibilidade de um Canadá liderado pelo candidato do Partido Conservador, Pierre Poilievre.
Talvez o leitor não saiba, mas fazia parte da agenda aprovada do Partido Conservador a revogação de direitos de pessoas trans, dentre outras iniciativas anti-2SLGBTQIA+. Nas províncias, já testemunhamos alguns casos em Alberta, Saskatchewan e New Brunswick.
Vale ressaltar que políticas anti-trans são também contra as comunidades LGBTQIA+, não importa onde estejamos. Se temos direitos hoje, muitos vieram pela luta de pessoas trans. A própria celebração do Mês do Orgulho vem do reconhecimento das lideranças (femininas) nos protestos de Stonewall. Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera e Stormé Delarverie, duas mulheres trans e uma lésbica. Três nomes que mudaram a história das comunidades LGBTQIA+ para sempre e que foram além daquele 28 de junho de 1969.
Hoje, vivo do legado criado por estas e muitas outras pessoas que vieram antes de mim. Sigo comprometido com a minha identidade e meus direitos como qualquer outra pessoa. Quando as minhas comunidades são ameaçadas, o alvo também é colocado em mim. Por isso, convido-te a se juntar a mim, a nós e às múltiplas cores do nosso arco-íris. Vamos juntos aos céus subindo, celebrando nossas vidas, experiências, amores e, principalmente, o direito de viver o ano todo.

Foto: Hewton Tavares.

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