A guerra da Ucrânia é também um desastre ecológico

E o que é que isto significa para o futuro do país?

Reserva de Askania-Nova, na região de Kherson, na Ucrânia. Foto: Ann Gayova.

Antunes Muaquesse é doutorando em Administração Pública pela University of Ottawa

Enquanto o impacto humano da guerra na Ucrânia tem, com razão, captado a atenção internacional, uma tragédia mais silenciosa continua a desenrolar-se no terreno, e com implicações devastadoras para a região e para o planeta: o aceleramento do colapso ecológico. A guerra moderna não é apenas uma crise geopolítica, é também uma crise ambiental. Cada explosão dilacera não só as comunidades, mas também os ecossistemas. As florestas são destruídas, os solos contaminados, os rios poluídos e a fauna é deslocada ou simplesmente, completamente eliminada. A guerra na Ucrânia abriu aquilo que poderíamos chamar uma frente ecológica, um campo de batalha ambiental em grande parte invisível, mas não menos destrutivo, onde a natureza está sob cerco e aniquilamento.

Não é apenas em Askania-Nova, uma reserva da biosfera na região de Kherson, perto das areias de Oleshky que isto é evidente, há muito mais regiões em países africanos ou da América do Sul com situações semelhantes ou mais graves. Mas nos limitando ao texto, a Askania-Nova alberga espécies endémicas e ecossistemas de estepe frágeis. Hoje, tornou-se um símbolo da vulnerabilidade ecológica em tempo de guerra. Desde o início do conflito, responsáveis da reserva como Viktor Shapoval têm soado o alarme. O problema não reside apenas nas destruições que podem observar, “é também nos danos que ainda não se consegue quantificar”, avança, Shapoval; “Não sabemos a verdadeira extensão da perda de espécies ou da degradação dos habitats”. Pior ainda, poderá nunca ser possível recuperar aquilo que está a ser perdido nesta guerra. A atividade militar trouxe minas terrestres, resíduos tóxicos, poluição do ar e da água, e o colapso das proteções dos habitats. Incêndios, tanto deliberados como acidentais, já destruíram mais de 2.000 hectares dentro e em redor da reserva. As operações irregulares estão a gerar emissões maciças de gases com efeito de estufa. Estes impactos são cumulativos e em grande medida ignorados na maioria das estimativas sobre o custo da guerra.

Animais em perigo, sob enorme stress, fogem sem qualquer acompanhamento veterinário. Os ciclos reprodutivos estão a ser interrompidos. As cadeias alimentares estão a colapsar. Algumas espécies poderão extinguir-se silenciosamente, sem nunca terem sido devidamente estudadas ou documentadas. Este impacto ambiental afeta também os seres humanos. Metais pesados e resíduos químicos estão a contaminar os solos e a água. As populações locais já reportam um aumento de doenças respiratórias, dermatológicas e outras patologias crónicas. É muito provável que as consequências a longo prazo venham a ser ainda mais graves, sobretudo em zonas rurais, com acesso limitado a cuidados de saúde. A acrescentar a esta crise, há um aumento do abate ilegal de madeira, da caça furtiva e da extração de recursos naturais. À medida que as estruturas legais se vão enfraquecendo durante a guerra, áreas protegidas como Askania-Nova tornam-se alvos de exploração ambiental. Este saque não só destrói os ecossistemas, como também enraíza a destruição ecológica nas economias locais em tempo de guerra.

Foto: Sulamita Pyvovar.

A guerra está igualmente a contribuir para a crise climática global, visto que os sumidouros de carbono estão a ser aniquilados. O que é que isto significa para o futuro da Ucrânia? Significa que a reconstrução do país não poderá centrar-se apenas em cidades, pontes e estradas. Terá de incluir uma estratégia abrangente de reparação ecológica. A recuperação da Ucrânia terá de ser verde, baseada na ciência e apoiada através de uma cooperação internacional robusta. Sem isso, nenhuma reconstrução será completa. Isto não é idealismo ambiental, é uma necessidade ecológico-moral e civilizacional. Se queremos que a paz seja sustentável, ecologicamente e socialmente, é necessário reconhecer que toda a guerra é também uma guerra contra a natureza. Askania-Nova é um símbolo trágico, tal como o Parque Nacional de Virunga (República Democrática do Congo), o Delta do Okavango (Botswana) ou a Amazónia (Brasil). O ambiente não é um dano colateral. É também uma vítima plena. E, se a inação for eficiente, será uma vítima tanto da paz como da guerra.

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