Memórias do fim do mundo

Tovar Júnior “resgata” poema de V. E. Lilith

Ilustração de Leonardo Labriola.

Trecho 4, de V. E. Lilith1

 

Naquela época, lembraram de desenhar

numa parede

a expressão do porco

morto em sacrifício para a feijoada.

 

A comida acabou ficando intacta.

 

Resolveram então enterrar

as peças do animal

esquartejado

como se fossem as partes do corpo de um mártir

morto em sacrifício.

 

Era já o prenúncio,

(vários pipocavam)

da coisa que se concluiria

com a descoberta de um berçário de estrelas

em fins do século.2

 

E as catástrofes que despencaram

como quedas d’água

sobre o mundo globalizado

ninguém fotografou.

 

Legiões de amigos

começaram a lavar

o chão com choro

do transe estético

numa espécie de religião generalizada

da alegria.

 

A hora e o dia primeiro

de algo maior do que

a revolução esquecida.

 

Nada que ver

com a podridão eletiva

do juízo final

nem com os espasmos históricos

das transformações que não foram capazes

afinal

de produzir a realidade pós-apocapitalística.

 

Enfim, a Terra tremeu

mas nessa altura também

a abóbora das comoções

estava tão alastrada

que é difícil saber

quando dá na noite o dia.

 

Fiquemos, por ora,

Com a sequência de imagens:

 

Do rosto do porco morto

desenhado na parede nua

no dia da feijoada;

 

Do berço de estrelas

descoberto por um telescópio

posterior ao James Webb;

 

Das lágrimas de alegria de legiões

de artistas

que começaram a lavar

os chãos do mundo com lágrimas

de transe estético

 

depois das catástrofes

que despencaram como quedas d’água

sobre o mundo globalizado

que ninguém mais fotografou.

 

(Ilhanegra, outono de 2984.)

 

1 Ainda se sabe muito pouco sobre a autora em questão. De qualquer modo, resolvemos iniciar a publicação dos textos que nos chegaram em mãos por intermédio de uma conhecida que, desafortunadamente, acabou falecendo em circunstâncias trágicas, no contexto da pandemia, em 2020. Resolvemos publicá-los sem muitas modificações, além daquelas relacionadas à grafia, uma vez que manter as variantes linguísticas do final do século XXX poderia tornar o texto praticamente ilegível para muitos leitores de nosso século. (Nota do editor Tovar Júnior)

2 A autora se refere ao fim do século XXI. (Nota do editor)

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