Memórias do fim do mundo
Trecho 4, de V. E. Lilith1
Naquela época, lembraram de desenhar
numa parede
a expressão do porco
morto em sacrifício para a feijoada.
A comida acabou ficando intacta.
Resolveram então enterrar
as peças do animal
esquartejado
como se fossem as partes do corpo de um mártir
morto em sacrifício.
Era já o prenúncio,
(vários pipocavam)
da coisa que se concluiria
com a descoberta de um berçário de estrelas
em fins do século.2
E as catástrofes que despencaram
como quedas d’água
sobre o mundo globalizado
ninguém fotografou.
Legiões de amigos
começaram a lavar
o chão com choro
do transe estético
numa espécie de religião generalizada
da alegria.
A hora e o dia primeiro
de algo maior do que
a revolução esquecida.
Nada que ver
com a podridão eletiva
do juízo final
nem com os espasmos históricos
das transformações que não foram capazes
afinal
de produzir a realidade pós-apocapitalística.
Enfim, a Terra tremeu
mas nessa altura também
a abóbora das comoções
estava tão alastrada
que é difícil saber
quando dá na noite o dia.
Fiquemos, por ora,
Com a sequência de imagens:
Do rosto do porco morto
desenhado na parede nua
no dia da feijoada;
Do berço de estrelas
descoberto por um telescópio
posterior ao James Webb;
Das lágrimas de alegria de legiões
de artistas
que começaram a lavar
os chãos do mundo com lágrimas
de transe estético
depois das catástrofes
que despencaram como quedas d’água
sobre o mundo globalizado
que ninguém mais fotografou.
(Ilhanegra, outono de 2984.)
1 Ainda se sabe muito pouco sobre a autora em questão. De qualquer modo, resolvemos iniciar a publicação dos textos que nos chegaram em mãos por intermédio de uma conhecida que, desafortunadamente, acabou falecendo em circunstâncias trágicas, no contexto da pandemia, em 2020. Resolvemos publicá-los sem muitas modificações, além daquelas relacionadas à grafia, uma vez que manter as variantes linguísticas do final do século XXX poderia tornar o texto praticamente ilegível para muitos leitores de nosso século. (Nota do editor Tovar Júnior)
2 A autora se refere ao fim do século XXI. (Nota do editor)

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