Saudações, patriotas canadenses
Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto
Se você achou que eu comecei o texto já fazendo hora com a cara de todo mundo: calma. Não tire conclusões apressadas. Na verdade, nem eu mesmo ainda sei se estou brincando ou falando sério. Só sei que era o começo do ano e eu estava quieto, fazendo planos pra 2025, Ano Novo em BH, aniversário no Dia dos Namorados daqui, debaixo de frio, neve, vento, nevasca, chupacabra, mulher de branco… E daí viria a Páscoa, que geralmente passo com o cunhado em Massachussets e realizo meu rito anual de volta à infância, indo e voltando igual uma besta por baixo daqueles túneis de ovo de Páscoa. Cê lembra daquilo? Aqueles que montavam nas Lojas Americanas, no Brasil? Aquilo na vida de quem gosta de chocolate é espeleologia pura! No escuro da caverna, as estalactites de Sonho de Valsa tamanho 16 contrastam com pinturas rupestres na embalagem do Crocante da Garoto. Há algo amarelo nestas paredes: será ouro? Não, é Caribe tamanho 12, apelidado pelos nativos de “ouro de banana”. Ao fim da expedição, tem Brahma e Bohemia pra vender no liquor store ao lado, e assim o lado criança e o lado adulto se unem pra passar mal juntos, numa comunhão de alegria e azia.
Mas eis que de repente, toma posse como presidente dos EUA essa criatura curiosa, mandando o recado que, convenhamos, todos já ouvíamos veladamente há muitos anos: “quem assume posição de preponderância mundial visando paz e harmonia entre os povos é Dalai Lama. Aqui nós queremos é dinheiro na mão e Nike no pé”. Novidade nenhuma, a América do Sul sempre soube como os EUA operam há muito tempo, basta você abrir o portal do inferno e mandar o porteiro chamar gente como um tal de Henry Kissinger, ou John Dulles, que eles te contam como a coisa funcionava. Continente de política bem mandada é outra coisa, as corporações americanas entraram nele sobre um tapete vermelho de concessões tão boas, mas tão boas, que Erasmo Carlos poderia cantar “amigo de fé, irmão camarada” olhando nos olhos de Roberto, a orquestra lá, “pá pára papara papara”, as lágrimas rolando nas duas faces enternecidas, os dois se abraçam, começa a subir o letreiro, feliz ano novo a toda a nação, paz e luz… e ainda assim: se bem ali, naquele momento, Erasmo pedisse ao irmão Roberto uma concessão daquelas, pode desligar câmera, luz, orquestra, letreiro, buffet e o cabrunco, porque Roberto não dava.
Enquanto nosso calejado continente olha pras tarifas com a mesma surpresa de quem vê o Fábio Júnior casando de novo, no nosso novo continente o banzé se formou com força. Ah, o Canadá, esse vizinho manso, o Ned Flanders do Homer Simpson, povo pacato e – comparado aos vizinhos do sul – educado, que diz ser rival dos EUA mas ama americano de paixão e quer morar lá quando aposentar… Pois além de tomar tarifa na telha, não é que ainda ouviu desaforo? Só as tarifas já bastariam pra bagunçar a vida do pobre canadense, visto que ele nunca se preocupou em diversificar seus mercados e achou que dava pra ganhar a vida fazendo garage sale pros vizinhos de baixo. Mas havia mais por vir: além das tarifas, o vizinho desaforado ainda falou que há muito tempo vinha fazendo benfeitoria nesse imóvel aqui do norte, e agora queria que passassem a escritura pro nome dele. Falou na cara dura que o Canadá realmente é só o boné dos EUA no mapa e deveria virar um Estado americano. E pra consagrar a esculhambação, ainda disse que a gente iria gostar.
Então a conversa começou séria, com tarifas e renegociações comerciais, e descambou pra falação de bobagem? No universo dos bares, esse comportamento é conhecido: trata-se do cidadão que, envolto em sua deliciosa névoa de cachacidão, solta UMA fala que cativa a atenção de todos. Ao perceber que finalmente deu uma dentro, entretanto, o elemento se empolga e tenta esticar o assunto, acrescentar, fazer a piada render… Pronto. Já ficou forçado. Já perdeu a graça. Daí um amigo levanta pra ir ao banheiro, outro vai comprar uma ficha de sinuca, outro pede pra ver a conta, e assim a verdadeira face do filósofo etílico volta a se refletir no vidro escuro da garrafa de Jurubeba Leão do Norte. Seria esse o caso do temível presidente? Falou de tarifa, o povo ficou mudo, daí se empolgou, tomou um gole de Glacial e subiu na mesa pra esticar o assunto, acusar a África do Sul usando foto de Uganda, falar que quer invadir, anexar etc.?
Eu não acredito nisso. Pra mim, foi tudo de caso pensado, utilizando outro negocinho que nós estamos cansados de conhecer: a boa e velha cortina de fumaça. Afinal, todo mundo se lembra do “golden shower”, de um presidente comentando vídeos de Carnaval e achando tudo muito indecente… mas ninguém se lembra que, naquele momento, o PIB ficava abaixo da média de crescimento e o país perguntava “onde está o Queiroz?”. E o que dizer da redução de alíquotas de importação de armas e todo o bate-boca em torno dele, bem no momento em que o governo era pressionado pelo plano de vacinação que não saía durante a pandemia? Pois é, se os EUA criaram a Doutrina Monroe, nós criamos a Doutrina Doido da Praça 7, que consiste em subir no obelisco da praça pra distrair o povo, enquanto a malandragem passa a mão em tudo que dá pra carregar e correr. E eis aí o resultado: um doidão grita que vai anexar o país, enquanto a malandragem negocia a entrada de bancos americanos no Canadá. Um doidão grita que o Brasil tem que perdoar a turma do golpe de Estado, enquanto a malandragem tá querendo é negociar mercado no país para os seus sistemas de pagamento eletrônico. Afinal, é regra do jornalismo: notícia de treta sempre dá mais Ibope do que notícia de economia.

Ilustração de Valf.
É bonito perceber que o patriotismo canadense ganhou uma nova roupagem com essa história toda. O boicote a produtos americanos, apesar de já ter arrefecido um pouco, continua vivo. E o boicote turístico continua bastante forte. Já não vemos vaias nos eventos esportivos, o furor já baixou, mas o cerne do movimento ainda segue firme. Arrisco dizer que no Brasil estamos vendo também uma ainda tímida ressureição do “verás que um filho teu não foge à luta”, e tenho fé que nosso povo ainda há de parar de babar americano e abrir os olhos pra assimilação cultural que vivemos, mas infelizmente o nosso senso comunitário ainda costuma entregar a paçoca: abraça a causa, mas se pintar benefício pessoal, é tchau, bênção e um abraço do Paulino – meu sonho é discursar na ONU e encerrar com essa frase, pra todo mundo de BH na plateia começar aquele burburinho “ó que marmota, esse véio deve ser de BH…”, “ai que menino barango”, “nó, esse é fêi demais”. Ia ser lembrado como o dia em que Belo Horizonte parou as Nações Unidas só com o poder do fuxico.
Depois de muitos anos, eu deixei de cruzar a fronteira, outros deixaram de vender pros EUA, outros venderam propriedades que tinham lá, governos buscaram novos parceiros comerciais… são agruras que vão do inconveniente ao assustador, mas agruras ensinam muito: vide Covid, meu caro Euclide. Quem sabe não seriam elas o empurrão que o mundo precisava pra parar de sambar, arrancar a fruteira de Carmen Miranda da cabeça e tacar no imperialismo? Que seja, e que os espetos da coroa do abacaxi acertem primeiro.
Adeus, cinco letras que choram.

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