O retrato da religião no Brasil na última década

Série histórica indica desaceleração do crescimento evangélico, queda católica menos intensa e avanço dos sem religião

Rodrigo Toniol é colunista do Jornal de Toronto

Em junho deste ano, o IBGE divulgou os números do Censo sobre a religião dos brasileiros. O país reúne uma das mais longas séries históricas do mundo nesse tema, o que nos permite acompanhar, década a década, com poucas interrupções, as transformações nas respostas à pergunta: “Qual é sua religião?”.

À primeira vista, os números surpreendem pouco, reiterando a tendência de gangorra que se consolidou desde a década de 1990. Nessa gangorra, a regra tem sido clara: enquanto o número de evangélicos cresce, o de católicos diminui. No entanto, uma análise mais atenta do Censo de 2022 mostra um cenário mais complexo. Ao contrário da expectativa amplamente difundida pela imprensa ao longo da última década, a intensidade do crescimento evangélico foi muito abaixo do previsto, apontando para uma desaceleração significativa dessa expansão populacional. Segundo o IBGE, 26,9% da população brasileira se declara evangélica; havia a expectativa de que esse percentual alcançasse, no mínimo, 30%.

A explicação para essa diferença envolve uma lição estatística: à medida que a base populacional evangélica se amplia, manter os mesmos índices percentuais de crescimento se torna mais difícil. Crescer de 5% para 15% é mais simples do que avançar de 25% para 35%. A dinâmica populacional impõe, assim, um freio natural ao crescimento. Isso não significa necessariamente estagnação, mas pode indicar a maturação de um ciclo de consolidação da base evangélica nacional.

Do outro lado da gangorra, há uma constante que atravessa 150 anos de perguntas censitárias sobre religião: o percentual de católicos diminui. Em 1872, eram 99,7% da população; cinquenta anos depois, 95%. Na década de 1960, haviam recuado a 90%; em 1980, à casa dos 80%. Hoje, segundo o último Censo, representam 56,7%. Ou seja, desde que o Brasil passou a medir sua demografia religiosa, começou também a deixar de ser católico.

Os dados recém-divulgados pelo IBGE, contudo, mostraram uma redução menos intensa da fatia católica. Especulava-se uma queda igual ou superior a 10 pontos percentuais na última década, mas o que se observou foi uma diminuição de 8,3 pontos entre 2010 e 2022. Se acompanharmos a sequência histórica de 1991 a 2022, o Censo revela uma desaceleração na taxa anual de queda entre católicos. Passamos de uma redução média de 1,33% ao ano nos anos 1990 para 1,25% na década de 2000 e 1,17% na última década. O catolicismo segue perdendo fiéis, mas a velocidade da erosão diminui de forma lenta e contínua.

Há o risco, porém, de olharmos apenas para essa gangorra entre católicos e evangélicos e deixarmos de perceber uma transformação estrutural mais ampla da paisagem religiosa brasileira. O país segue majoritariamente cristão, mas sua base demográfica vem encolhendo de maneira consistente. Em apenas quatro décadas, o percentual de cristãos na população caiu cerca de 12,5%. Ou seja, embora a dinâmica entre católicos e evangélicos redesenhe o mapa religioso nacional, o cristianismo como um todo está em retração.

Parte da explicação para esse quadro está no grupo dos que se declaram sem religião. Nenhum outro segmento cresceu tanto no Brasil nas últimas décadas. Entre 1980 e 2022, sua participação na população saltou de 1,8% para 9,3% – um aumento de mais de cinco vezes. A tendência ascendente vem desde os anos 1970, quando menos de 1% se declarava sem religião. Desde então, o crescimento foi contínuo: 7% em 2000, 7,9% em 2010 e 9,3% em 2022.

Os sem religião não necessariamente não acreditam em Deus, mas expressam duas recusas: à autoridade das instituições religiosas e aos mediadores tradicionais do sagrado – sacerdotes, pastores, pais de santo. Preferem percursos espirituais que dispensam essas instâncias de legitimação. Em síntese, creem sem pertencer.

O retrato da próxima década, portanto, talvez não seja apenas a disputa entre católicos e evangélicos, mas a ascensão constante dos que se dizem sem religião.

Sobre Rodrigo Toniol (13 artigos)
Rodrigo é doutor em antropologia e professor da Unicamp, tendo realizado estudos de pós-doutorado na Universidade de Utrecht (Holanda); foi também pesquisador-visitante nos Estados Unidos e México. Suas pesquisas e publicações estão principalmente relacionadas com os temas de religião, saúde e ciência.

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