Toronto, terra de oportunidades para quem sabe aproveitá-las

Integrar-se nesta terra exige hoje mais do que boa vontade ou diplomas genéricos, é preciso uma leitura atenta do mercado e escolhas estratégicas

Prédio do Student Learning Centre da Toronto Metropolitan University. Foto: Rafael Salsa Correa.

Antunes Muaquesse é doutorando em Administração Pública pela University of Ottawa

Ontário é conhecida pelo seu acolhimento caloroso a comunidades vindas de todo o mundo. Toronto, em particular, é uma cidade vibrante, onde se falam mais de 180 línguas, porque metade da população nasceu fora do país, e onde cada cultura encontra o seu espaço. Mas integrar-se nesta terra de oportunidades exige hoje mais do que boa vontade ou diplomas genéricos, é preciso uma leitura atenta do mercado e escolhas estratégicas na formação e no empreendedorismo para transformar esses sonhos em oportunidades concretas de trabalho e estabilidade.

O mercado de trabalho torontoniano é, sem dúvida, dinâmico – o emprego existe –, mas também é altamente competitivo. Formações teóricas tradicionais, como ciências sociais, por vezes não oferecem uma vantagem competitiva imediata. As estatísticas mostram-no, segundo o Toronto Labour Market Bulletin, em 2024, as áreas com maior crescimento e colocação imediata foram tecnologia da informação, saúde, comércio especializado e construção. Por contraste, muitos estrangeiros com formações muito teóricas, como gestão sem foco prático, enfrentam longos períodos de subemprego ou de requalificação forçada. Um exemplo claro vem do setor tecnológico. Empresas sediadas no Toronto-Waterloo Innovation Corridor, procuram constantemente programadores, especialistas em cibersegurança, analistas de dados, entre outros. O mesmo se verifica na construção civil, com a Ontario General contractors Association a reportar uma escassez crónica de soldadores, canalizadores, eletricistas e operadores de maquinaria pesada, profissões que oferecem estabilidade e salários atrativos.

Na saúde, o envelhecimento da população torontoniana e a pressão sobre o sistema público criaram uma procura sem precedentes por enfermeiros, auxiliares de farmácia e técnicos especializados. O Ontario Health Workforce Report indica que a província precisará de mais de 33 mil profissionais de enfermagem adicionais até 2030. Face a este cenário, é imperativo e oportuno que os imigrantes, e em especial os que chegam com elevadas aspirações académicas, considerem uma estratégia pragmática, que pode ser optar por formações técnicas e especializadas, muitas vezes de curta duração, com elevada empregabilidade, como por exemplo em canalização, seguros, informática, saúde, engenharia aplicada ou direito especializado que conduzem a saídas profissionais concretas e rápidas. Outra via muitas vezes negligenciada, mas com grande potencial, é o autoemprego. Toronto, capital económica do país, oferece um ecossistema vibrante para pequenos empreendedores. Não é raro ver imigrantes a iniciarem negócios de restauração ou de comércio online com capital inicial modesto ($200 a $500 dólares), revendendo artigos em plataformas digitais, enquanto mantêm um emprego paralelo. Este tipo de abordagem incremental permite acumular capital e experiência, sem riscos excessivos.

Além disso, Ontário dispõe de mecanismos de apoio ao empreendedorismo. O Development Bank of Canada (BDC), por exemplo, oferece programas de financiamento até $25 mil dólares para projetos de negócios, sem necessidade de garantias pesadas, para além da capacidade de reembolsar o empréstimo. Workshops gratuitos e programas de mentoria estão disponíveis em centros como o Toronto Business Development Centre. Este espírito de autoemprego não é novo. Recordemos que, historicamente, os imigrantes que chegavam a Ontário, quer seja por carruagens ou depois por navios, viam no empreendedorismo uma via natural de integração e sobrevivência. Hoje, com um mercado cada vez mais competitivo e segmentado, este espírito continua mais atual do que nunca. Portanto, a promessa torontoniana continua viva, mas é um prometido que recompensa a adaptabilidade, a formação orientada para o mercado e o espírito empreendedor. A aposta em diplomas ou formações pouco ajustadas ao contexto atual corre o risco de gerar frustração e precariedade. É preciso ler os sinais do mercado com realismo e estratégia, para que assim a narrativa de sucesso dos imigrantes de Toronto continue a ser escrita, não apenas com sonhos, mas com resultados concretos, positivos e estáveis social e mentalmente.

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