Ajustar o ideário ao governo Trump ou seguir adiante sem ele?
André Oliveira & Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto
Vamos considerar, embora com boa dose de reducionismo, que ser de direita no Brasil significa ser a favor do livre mercado e da ampla (talvez irrestrita) liberdade de expressão, bem como fazer vigorosa oposição ao movimento woke, já que, em razão dos seus supostos excessos, criaria vantagens e privilégios não ancorados no mérito para certas minorias.
Considerando esse ideário, entende-se o entusiasmo que a cruzada iniciada pelo presidente Donald Trump contra os liberais apoiadores do movimento woke provocou em vastos segmentos da direita no Brasil. Afinal, como pontuou o filósofo político Roger Scruton no livro Conservadorismo: um convite à grande tradição (2019), “no uso popular americano de hoje, ‘liberalismo’ significa liberalismo de esquerda – não confundir com neoliberalismo”. Aqui, não haveria contradições com o que pensa a direita brasileira, pelo menos significativa parte dela.
No campo econômico (mas não somente nele), porém, as contradições entre o que se é (ou que se pensa que é) e as ações do governo Trump.2 começam a emergir. Trump deflagrou uma agressiva guerra tarifária que alvejou até os aliados europeus ocidentais, mas poupou a Rússia de Vladimir Putin, a quem protege ao retirar o apoio econômico e militar à Ucrânia. Impor tarifas unilaterais, e, pior ainda, de percentuais abusivos em um mundo economicamente globalizado, representa um claro atentado à ideia de respeito ao livre mercado. Não custa lembrar que Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, com economias extremamente fechadas, são apontadas pela direita brasileira como modelos de regimes totalitários que a esquerda supostamente quer implantar no país. Aqui, começam as contradições ou dificuldades para a direita.
Em 11 de maio, por exemplo, o jornalista Caio Blinder postou no X (ex-Twitter) que “no nosso mundo ao avesso, Lula tem uma visão mais sofisticada do que a do anacrônico Trump e sua obsessão tarifária”. Logo abaixo do post, Caio fixou uma foto do presidente Lula com a frase “Os produtos devem fluir livremente no mundo”. Mais de uma centena de usuários criticaram o post de Caio Blinder, alguns alegando que Lula expressava uma falsa conversão ao liberalismo, mas aparentemente sem se darem conta de que a ironia do jornalista apontava uma contradição insuperável do novo “mundo ao avesso”.
Já o midiático deputado Nikolas Ferreira (PL/MG), acólito da família Bolsonaro, defendeu o veto do governo americano a estudantes que queiram estudar no país com base na preferência política manifestada. Nikolas ponderou que o governo Trump estaria certo em vetar a entrada de “comunistinha” no país, um pronunciamento contraditório para quem se apresenta como defensor da liberdade de expressão. Um verdadeiro democrata defende o choque de ideias divergentes que decorre do pluralismo político. No século XIX, o velho Karl Marx foi expulso da França, da Bélgica e da Prússia (hoje Alemanha) até receber abrigo definitivo no Reino Unido, não por acaso um dos modelos consolidados de sociedade democrática.
O Instituto Mises Brasil, think tank que se pretende libertariana, é que parece ter encontrado mais dificuldades para justificar o apoio ao novo governo Trump. No artigo “O grande inimigo do povo americano não é a China, mas seu próprio governo”, Artur Ceolin não chega propriamente a condenar o intervencionismo econômico robusto de Trump, apenas pondera que “seu foco deve ser reduzir o tamanho e o escopo do governo e livrar o americano de arcar com os pesados déficits públicos e com a contínua expansão monetária”. A ingênua sugestão do artigo colide com a realidade, já que, como foi amplamente noticiado, a agência Moody’s rebaixou a nota dos Estados Unidos em virtude do agravamento da situação fiscal sob o novo governo Trump.
Por fim, mas não menos importante, Trump apoia a Rússia com sua falsa neutralidade na Guerra da Ucrânia – como se sabe, Putin está bem longe de ser um defensor da liberdade de expressão, seus críticos são exilados, presos e/ou mortos em circunstâncias absolutamente obscuras. Trump iniciou ainda uma campanha contra a autonomia das universidades americanas, ao criar constrangimentos institucionais ao livre funcionamento de Harvard e de outras instituições de ensino superior.
Ajustar o próprio ideário aos propósitos (intervencionistas e, em larga medida, caóticos) do governo Trump ou seguir adiante sem Trump se constitui em um grande dilema para a direita brasileira, e que talvez só se resolva separando quem é liberal, sobretudo no campo econômico, de quem é reacionário. Mas este é assunto para outra coluna.

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