Por um dever de consciência

O livro “Pedagogia do Oprimido” se tornou mais do que um clássico, figurando como referencial teórico fundamental em diversas universidades do mundo

Desenho de Paulo Freire feito por André Shitetsu Toma.

Tovar Júnior é educador

O manuscrito de Pedagogia do Oprimido foi concluído no Chile, em 1968, em português, mas publicado pela primeira vez pela editora Herder and Herder, New York, em inglês, no ano de 1970. De lá para cá, desnecessário dizer que esta obra se tornou mais do que um clássico, figurando como referencial teórico fundamental nos campos das ciências sociais e humanas em diversas universidades do mundo. Basta lembrar o famoso resultado da pesquisa realizada pelo projeto Open Syllabus, no qual Pedagogia do Oprimido figura como o único livro brasileiro a constar da lista dos 100 títulos mais indicados por professores nas bibliografias das universidades de língua inglesa (Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia). Ou seja, ler obras deste calibre significa menos uma questão de índole ideológica do que uma espécie de dever de consciência para todo aquele que preze ter contato com o patrimônio cultural historicamente produzido pela humanidade.

Dito isso, adentremos no universo conceitual do livro que marca um importante ponto de chegada do primeiro momento da trajetória intelectual de Paulo Reglus Neves Freire, vulgo Paulo Freire (1921-1997).

É nesta obra que o autor apresentará pela primeira vez ou oferecerá um acabamento conceitual mais maduro para categorias pelas quais viria a ser mundialmente reconhecido, tais como: diálogo, conscientização, relação opressor-oprimido, concepção bancária de educação.

Tais categorias, e isso explica em parte o êxito da obra, funcionam como resposta, no âmbito da educação popular, à busca de toda uma geração, engajada na transformação das estruturas sociais produtoras de desumanização ou, para usar uma expressão muito característica de Freire: impedidoras de que o ser humano cumpra sua “ontológica vocação de ser mais”.

Em Pedagogia do Oprimido, o autor alça sua filosofia da educação a um novo patamar que lhe permitirá, de um lado, elaborar teoricamente sua experiência prática anterior, realizada no Brasil, por outro, avançar nos aspectos práticos de sua ação educacional transformadora no Chile, depois na África e em diversos países do mundo, por meio de colaborações de diferentes tipos.

Esse passo adiante dado por Pedagogia do Oprimido significa a possibilidade de articulação entre educação e política a partir de uma compreensão não idealista da realidade. Quer dizer, a partir de uma compreensão concreta da realidade concreta a ser transformada em favor da realização humana do ser humano. Nesse sentido, por exemplo, cumpre papel fundamental a compreensão de que a transformação das consciências dos sujeitos-educandos, bem como dos sujeitos-educadores – o processo de conscientização – não se dá fora do processo de transformação prática da realidade na qual os sujeitos se fazem enquanto tais.

Diferentemente do que aparece em sua obra anterior, Educação como prática da liberdade, publicada em 1967, e referenciada nas experiências educacionais brasileiras anteriores ao exílio, a transformação da realidade não se processa tão somente pelo fato de ela ter sido desvelada em nível teórico. A conscientização, na verdade, é fruto da articulação dialética entre ação e reflexão, segundo as condições abertas pelo momento histórico que nos atravessa e a partir do qual qualquer transformação é possível.

Como boa parte das obras clássicas que formam o cânone da literatura de todos os tempos, Pedagogia do Oprimido é obra exigente, na relação com a qual temos que nos gabaritar para poder fruí-la. Outro modo de dizer que livros desta envergadura não podem ser concebidos equivocadamente como mercadoria de consumo fácil para momentos de distração, como tantas que circulam de modo hegemônico nesse doloroso momento de rebaixamento cultural. Aqui, o que está em jogo é nada menos do que a realidade, o ser humano e suas possibilidades de ser, ou não ser. Como dizia minha avó, a leitura “paga a pena”.

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