Do smartphone ao dumbphone: a volta à experiência analógica
Mariana Schuetze é jornalista
Semana passada, eu estava assistindo a um tutorial de como transformar meu smartphone, transbordando com distrações e cores, em um dumbphone, uma máquina puramente funcional – buscando pelo básico: ligação, mensagem e foto.
Essa não é uma experiência isolada. Se você ainda não foi pêgo pela nova tendência das tecnologias analógicas, logo será. Flip phones, livros, revistas e jornais físicos, discos de vinil e até walkmans estão na moda novamente. Considerando o mundo digital como algo completamente poluído, com anúncios, sons e imagens bombardeando as nossas telas, e vidas, não é difícil entender por que muitos estão migrando de volta ao universo analógico, mesmo que parcialmente. Na reportagem “The perfect escape from our online world”, publicada pela Vox em 2024, a jornalista Zoë Bernard analisa nosso uso atual dessas tecnologias, os vícios associados e como alguns tentam escapar das “garras do mundo digital”.

“We Are Rewind” é um exemplo dos novos modelos de walkmans pelo mundo.
Essa busca pelo analógico talvez esteja refletindo um desejo por uma realidade mais concreta, mais pé-no-chão. Com a internet, especialmente as redes sociais, muitas vezes nos perdemos em uma realidade imaginária; já sentar com um jornal no sofá nos incentiva a viver o presente. Desconectar é exercitar até mesmo o tédio, visto pela maioria como um grande monstro do qual todos nós precisamos fugir. Nesse mundo no qual tudo e todos estão a um clique de distância, aquilo que não estiver disponível instantaneamente corre o risco de se tornar obsoleto. Mas não é bem assim. A reportagem de Bernard conclui que esse movimento de volta ao analógico é uma busca justamente por uma tecnologia mais lenta, mas que ao fim vai nos trazer sensações que as ferramentas digitais não conseguem proporcionar.
Como ficam as notícias no Canadá?
No Canadá, a situação é um pouco diferente. Estamos, de uma certa maneira, sendo empurrados para um mundo digital pouco inteligente. Em agosto de 2023, a Meta, empresa-mãe do Instagram e Facebook, começou a bloquear no Canadá o acesso a notícias em suas plataformas, como uma resposta dramática à Bill C-18, conhecida como “Online News Act”, sancionada um mês antes. A lei, criada para promover a justiça no mercado digital de notícias, busca combater a desinformação, garantir acesso a fontes de notícias confiáveis – em um ambiente saturado de conteúdo digital superficial – e ao pagamento correto das agências que produziram as notícias.
De acordo com a 2020 General Social Survey – Social Identity (GSS SI), 95% dos canadenses entre 15 e 34 anos acessaram suas notícias online naquele ano. Segundo uma outra pesquisa, da Statistics Canada de 2023, as principais plataformas online utilizadas para notícias no Canadá em 2022 foram Facebook, YouTube e Instagram. Com a implementação da Online News Act, empresas como Meta e Google devem pagar por conteúdos de notícias compartilhados em suas plataformas, algo que elas se recusam a fazer. Como consequência, o bloqueio da Meta força os usuários a buscarem notícias em outros lugares ou a ignorá-las, o que se torna perigoso. Por outro lado, newsletters, revistas e jornais impressos podem se tornar o novo go-to daqueles que querem se manter informados. Comparado com a visita poluída ao mundo digital, cheio de anúncios e imagens pulando em sua frente, sentar e ler um jornal impresso pode ser muito mais prazeroso.
Realmente, o nosso uso das tecnologias e das redes sociais não é só um vício, é quase uma obrigação da sociedade contemporânea. Esse movimento em direção ao analógico, liderado pela geração Z, pode representar uma nova revolução na forma como consumimos informação.


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