Trump presidente e os impactos sobre a democracia no planeta

Concentração de poderes será capaz de erodir as instituições da democracia liberal?

André Oliveira & Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto

Donald Trump foi eleito com certa folga para um segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, ao contrário do que predisseram vários institutos de pesquisa que haviam projetado uma disputa acirrada com Kamala Harris, a candidata democrata. Mesmo usando linguagem desabrida, sobretudo contra os imigrantes latino-americanos, e ostentando o apoio de grupos supremacistas brancos, Trump conseguiu a surpreendente adesão da maioria dos próprios latinos, negros e jovens.

O desempenho da economia sob o presidente Joe Biden não foi capaz de superar a narrativa trumpista sobre fazer, de novo!, “a América grande” (no original, “Make America Great Again”, slogan também conhecido pela sigla MAGA). Trump se dirigiu novamente aos excluídos da globalização econômica, os americanos medianos com baixa qualificação profissional, que alimentam notório ressentimento contra as elites bem pensantes e cosmopolitas que formam também o núcleo duro do partido democrata. Reintegrar tais trabalhadores a uma economia dependente das cadeias produtivas globais será uma tarefa muito difícil, senão mesmo impossível. Seria mais congruente acenar com um programa de renda mínima universal, uma proposta muito atraente para os excluídos da globalização, ou com programas de qualificação ou retreinamento; tais propostas, todavia, não seriam compatíveis com a narrativa grandiosa contida no mote MAGA. Líderes populistas adotam soluções simplistas e imediatas, não respostas complexas de execução gradual.

No campo político, os receios de regressão do status democrático são ainda maiores, considerando que Trump é apoiado por grupos de extrema-direita, alguns deles supremacistas brancos, que não excluem o recurso às teorias da conspiração como instrumento de propaganda. Essa vinculação com grupos radicais de direita parece remontar à própria trajetória da família de Trump. No livro O Crepúsculo da Democracia (editora Record), a jornalista Anne Applebaum narra que, nos anos 1920, o pai de Trump foi preso junto com membros da Ku Klux Klan!

A grande questão é se Trump será capaz de concentrar poderes executivos exorbitantes a ponto de reduzir a qualidade da democracia americana, convertendo-a em uma autocracia tal como sucede hoje em alguns países como Hungria, Turquia e Rússia. A literatura em ciência política recentemente modificou seu entendimento para indicar que erodir as instituições da democracia liberal não é uma tarefa fácil para os líderes de perfil autoritário. Neste sentido, o cientista político americano, e professor da Universidade de Harvard, Steven Levitsky reviu em artigo sua posição catastrófica sobre a “morte” das democracias para reconhecer que elas apresentam resiliência diante de ameaças autoritárias.

Trump vai governar com maioria na Corte Suprema, Senado e Câmara (House of Representatives); portanto, não será espantoso se tentar ampliar seus poderes executivos, tornando-os exorbitantes, de modo a causar desequilíbrio entre os ramos de poder e, assim, rebaixar a qualidade da democracia americana. Se tentar essa via, o que reputamos como provável, restará à sociedade civil estadunidense, ainda que escorada em minorias, bem como à imprensa livre e às organizações independentes, resistir às intentonas autoritárias.

Afinal, o incremento do déficit democrático nos Estados Unidos, cujos Pais Fundadores mostraram ao mundo que poder democrático é poder compartilhado, seria uma catástrofe planetária para a causa da liberdade política. Se os recentes trabalhos em ciência política estiverem certos, a democracia americana mostrará resiliência às eventuais investidas autocráticas, uma hipótese que esperamos venha a se cumprir.

Sobre André Oliveira & Rodolfo Marques (50 artigos)
André Oliveira (à esquerda) é advogado com especialização em Direito Público, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco e membro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) desde 2009. Rodolfo Marques é analista judiciário, publicitário e jornalista; Mestre (UFPA) e Doutor (UFRGS) em Ciência Política, e professor de Comunicação Social na Universidade da Amazônia e na Faculdade de Estudos Avançados do Pará.

2 comentários em Trump presidente e os impactos sobre a democracia no planeta

  1. Clara e incisiva análise do cenário político atual.
    Muito bom!

  2. Perfeito, uma avaliaçao realista do enredo politco dos EUA

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