Velhas palavras podem conter a velha opinião sobre tudo

Prestar atenção para não usar palavras e expressões preconceituosas ajuda a combater o racismo

Ilustração de Silvia Gaudenzi.

Alecsandra Maciel Vila Nova é relações públicas, linguista e professora

Fui criança nos anos 80 e, às vezes, quando assisto a reprises de programas e escuto letras de música daquela época, fico boquiaberta. Como éramos capazes de consumir aquilo tão naturalmente? Temos aprendido que hábitos, expressões e até mesmo substantivos comumente usados antigamente não mais nos convêm usar hoje em dia. O conhecimento da nossa história nos proporciona ressignificar conceitos e repensar valores que eram costumeiros até pouco tempo atrás.

Que bom que evoluímos na linguagem! Não apenas na linha Darwiniana da humanidade, mas, acima de tudo, na esfera conceitual. O conhecimento é uma ferramenta poderosa que nos possibilita entender que não é correto perpetuar certos ciclos de racismo, de capacitismo e de preconceito.

Para citar alguns exemplos bem práticos aqui, lembro-me da época em que eu mesma chamava o móvel junto à cama de criado-mudo sem ter a mínima ideia de onde teria surgido este substantivo. Hoje, entendo que é um termo racista que faz referência a um escravizado que ficava em pé ao lado da cama do seu “dono” durante toda a noite, sem poder falar nada. Tal expressão pode ser facilmente substituída por “mesa de cabeceira”. No meu exercício de repensar valores, escolho não querer mais usar o termo criado-mudo. Acredito que não me custa muito me policiar para não perpetuar esse tipo de racismo.

Certa vez, estava na casa de uma amiga e seu filho pediu o carro emprestado. Ela olhou para ele e disparou: “Claro que não, já vi você dirigindo e você faz muita baianada!”. Respirei fundo. Ao lembrar que havia uma nordestina ali, ela quis se justificar dizendo que aquela era uma expressão comum na sua região – o que a colocou numa situação mais embaraçosa ainda. Ela claramente usou o termo baianada para dizer que o filho dirige de forma irresponsável, sem respeitar as regras de trânsito. Algumas questões valem a pena ser pontuadas aqui: primeiro, o plural de baiano é baianoS e não baianada – neste contexto, a palavra é usada para soar pejorativa –; outra questão seria atribuir aos baianos (aqueles nascidos no Estado da Bahia) a característica de sempre fazerem as coisas malfeitas e fora das regras. Vamos refletir: será que isso não é racismo? Ah, mas é porque todo mundo fala assim aqui… Então será que “todo mundo” não pode parar e repensar o uso dessa expressão?

Como podemos perceber, as nuances são bem estreitas e delicadas. Escolho verdadeiramente acreditar que, na maioria das vezes, não há a intenção de ofender, mas tenho que dizer uma coisa: ofende sim, é preconceituoso sim, e é racista sim.

Precisamos desesperadamente nos colocar no lugar do outro. Tirar a empatia da prateleira e do discurso intelectual bonito para, de fato, VIVENCIÁ-LA. Não é um exercício fácil, precisamos nos policiar diariamente e, quando eventualmente algo escapar, que sejamos maduros o suficiente para assumir a responsabilidade e pedir desculpa (com assertividade e sem justificativas): “Você me desculpe, acabei de usar uma palavra/expressão/piada racista. Eu entendo isso e não irei mais repetir”. Simples assim. Afinal de contas, como já diria o poeta: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter a mesma velha opinião sobre tudo”.

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